21 de jan de 2010

A Ilusão do Livre-arbítrio

A Ilusão do Livre-arbítrio

A ilusão do livre-arbítrio foi um obstáculo no caminho do pensamento humano durante milhares de anos. Vejamos se o senso comum e o conhecimento não o podem remover.
O livre-arbítrio é um assunto de grande importância para nós neste caso e devemos tratá-lo com os olhos bem abertos e com a inteligência bem desperta; não porque seja muito difícil, mas porque tem sido atado e torcido num emaranhado de nós górdios durante vinte séculos cheios de filósofos palavrosos e mal sucedidos.
O partido do livre-arbítrio clama que o homem é responsável pelos seus actos, porque a sua vontade é livre de escolher entre o certo e o errado.
Respondemos que a vontade não é livre e que se fosse, o homem não poderia conhecer o certo e o errado enquanto não fosse ensinado.
O partido do livre-arbítrio afirmará que, no que respeita ao conhecimento do bem e do mal, a consciência é um guia seguro. Mas eu já provei que a consciência não nos diz e não nos pode dizer o que está certo e o que está errado; apenas nos recorda das lições que aprendemos acerca do certo e errado.
A "suave voz baixa" não é a voz de Deus: é a voz da hereditariedade e do meio.
E agora para a liberdade da vontade.
Quando um homem diz que a sua vontade é livre, ele quer dizer que é livre de todo o controlo ou interferência; que pode dominar a hereditariedade e o meio.
Respondemos que a vontade é governada pela hereditariedade e pelo meio.
A causa de toda a confusão neste assunto pode ser mostrada em poucas palavras.
Quando o partido do livre-arbítrio diz que o homem tem livre-arbítrio, eles querem dizer que ele é livre de agir como escolhe agir.
Não há necessidade de o negar. Mas o que o faz escolher?
Este é o eixo em torno do qual toda a discussão gira.
O partido do livre-arbítrio parece pensar na vontade como algo independente do homem, como algo fora dele. Eles parecem pensar que a vontade decide sem o controlo da razão humana.
Se fosse assim, não provaria que o homem é responsável. "A vontade" seria responsável e não o homem. Seria tão ridículo censurar um homem pelo acto de uma vontade "livre" como censurar um cavalo pela acção do seu cavaleiro.
Mas vou provar aos meus leitores, apelando ao seu senso comum e ao seu conhecimento comum, que a vontade não é livre; e que é governada pelo hereditariedade e pelo meio.
Para começar, o homem comum estará contra mim. Ele sabe que escolhe entre dois percursos a toda a hora, e frequentemente a todo o minuto, e pensa que a sua escolha é livre. Mas isso é uma de e o seu meio o fazem escolher. Ele nunca escolhe e nunca escolherá a não ser como a sua hereditariedade e o seu meio ― o seu temperamento e a sua formação ― o fazem escolher. E a sua hereditariedade e o seu meio fixaram a sua escolha antes de ele a fazer.
O homem comum diz "Sei que posso agir como desejo agir." Mas o que o faz desejar?
O partido do livre-arbítrio diz "Nós sabemos que um homem pode e efectivamente escolhe entre dois actos." Mas o que decide a escolha?
Há uma causa para todo o desejo, uma causa para toda a escolha; e toda a causa de todo o desejo e escolha tem origem na hereditariedade ou no meio.
Pois um homem age sempre devido ao temperamento, que é hereditariedade, ou devido à formação, que é meio.
E nos casos em que um homem hesita ao escolher entre dois actos, a hesitação é devida a um conflito entre o seu temperamento e a sua formação ou, como alguns o exprimem, "entre o seu desejo e a sua consciência."
Um homem está a praticar tiro ao alvo com uma arma quando um coelho se atravessa na sua linha de fogo. O homem tem os olhos postos no coelho e o dedo no gatilho. A vontade humana é livre. Se ele carregar no gatilho, o coelho é morto.
Ora, como é que o homem decide se dispara ou não? Ele decide por intermédio do sentimento e da razão.
Ele gostaria de disparar apenas para ter a certeza de que é capaz de acertar. Ele gostaria de disparar porque gostaria de ter coelho para o jantar. Ele gostaria de disparar porque existe nele o antiquíssimo instinto caçador de matar.
Mas o coelho não lhe pertence. Ele não tem a certeza de que não se mete em sarilhos se o matar. Talvez ― se ele for um tipo de homem fora do comum ― sinta que seria cruel e covarde matar um coelho indefeso.
Bem, a vontade do homem é livre. Se quiser, ele pode disparar; se quiser, ele pode deixar ir o coelho. Como decidirá ele? De que depende a sua decisão?
A sua decisão depende da força relativa do seu desejo de matar o coelho, dos seus escrúpulos acerca da crueldade, e da lei.
Além disso, se conhecêssemos o homem muito bem, poderíamos adivinhar como o seu livre-arbítrio agiria antes que tivesse agido. O desportista britânico comum mataria o coelho. Mas sabemos que há homens que nunca matariam uma criatura indefesa.
De um modo geral, podemos dizer que o desportista desejaria disparar e que o humanitarista não desejaria disparar.
Ora, como as vontades de ambos são livres, deve ser alguma coisa fora das vontades que faz a diferença.
Bem, o desportista matará porque é um desportista; o humanitarista não matará porque é um humanitarista.
E o que faz de um homem um desportista e de outro um humanitarista? Hereditariedade e meio: temperamento e formação.
Um homem é, por natureza, misericordioso e outro cruel; ou um é, por natureza, sensível e outro insensível. Esta é uma diferença de hereditariedade.
Um pode ter sido toda a sua vida ensinado que matar animais selvagens é "desporto"; o outro pode ter sido ensinado que é inumano e errado; esta à uma diferença de meio.
Ora, o homem por natureza cruel ou insensível, que foi treinado para pensar que matar animais é um desporto, torna-se aquilo a que chamamos um desportista, porque a hereditariedade e o meio fizeram dele um desportista.
A hereditariedade e o meio do outro homem fizeram dele um humanitarista.
O desportista mata o coelho porque é um desportista, e é um desportista porque a hereditariedade e o meio fizeram dele um desportista.
Isso é dizer que o "livre-arbítrio" é realmente controlado pela hereditariedade e pelo meio.
Permitam-me que dê um exemplo. Um homem que nunca pescou foi levado à pesca por um pescador. Ele gostou do desporto e durante alguns meses praticou-o entusiasticamente. Mas um dia um acidente convenceu-o da crueldade que é apanhar peixes com um anzol e ele pôs de lado imediatamente a sua cana e nunca mais voltou a pescar.
Antes da mudança, se era convidado, ele estava sempre ansioso por ir pescar; após a mudança, ninguém conseguia persuadi-lo a tocar numa linha. A sua vontade foi sempre livre. Como se transformou então a sua vontade de pescar na sua vontade de não pescar? Foi consequência do meio. Ele aprendeu que pescar é cruel. O conhecimento controlou a sua vontade.
Mas, pode perguntar-se, como explica que um homem faça o que não deseja fazer?
Nenhum homem alguma vez faz uma coisa que não deseja fazer. Quando há dois desejos impera o mais forte.
Suponhamos o seguinte caso. Uma jovem recebe duas cartas no mesmo correio; uma é um convite para ir com o seu namorado a um concerto, a outra é um pedido para que visite uma criança doente num bairro de lata. A rapariga é uma grande apreciadora de música e receia bairros de lata. Ela deseja ir ao concerto e estar com o namorado; ela receia as ruas imundas e as casas sujas, e evita correr o risco de contrair sarampo ou febre. Mas ela vai ver a criança doente e não vai ao concerto. Porquê?
Porque o seu sentido do dever é mais forte do que seu amor próprio.
Ora, o seu sentido do dever é em parte devido à sua natureza ― isto é, à sua hereditariedade ― mas é principalmente devido ao meio. Como todos nós, a rapariga nasceu sem quaisquer conhecimentos e com apenas uns rudimentos de uma consciência. Mas foi bem ensinada e a instrução faz parte do seu meio.
Podemos dizer que a rapariga é livre de agir como escolhe, mas ela age de facto como foi ensinada que deve agir. Este ensino, que faz parte do seu meio, controla a sua vontade.
Podemos dizer que um homem é livre de agir como escolhe. Ele é livre de agir como ele escolhe, mas ele escolherá como a hereditariedade e o meio o fizerem escolher. Porque a hereditariedade e o meio fizeram com que ele seja aquilo que é.
Diz-se que um homem é livre de decidir entre dois percursos. Mas na realidade ele é apenas livre de decidir de acordo com o seu temperamento e a sua formação....
Macbeth era ambicioso; mas ele tinha consciência. Ele queria a coroa de Duncan; mas ele recuava perante a traição e a ingratidão. A ambição puxava-o num sentido, a honra puxava-o no outro. As forças opostas estavam tão uniformemente equilibradas que ele parecia incapaz de decidir-se. Era Macbeth livre de escolher? Até que ponto era ele livre? Ele era tão livre que não conseguia decidir-se e foi a influência da sua mulher que inclinou a balança para o lado do crime.
Era Lady Macbeth livre de escolher? Ela não hesitou. Porque a sua ambição era de tal modo mais forte que a sua consciência que ela nunca teve dúvidas. Ela escolheu como a sua toda-poderosa ambição a compeliu a escolher.
E a maior parte de nós nas nossas decisões assemelhamo-nos a Macbeth ou à sua mulher. Ou a nossa natureza é de tal modo mais forte do que a nossa formação, ou a nossa formação é de tal modo mais forte que a nossa natureza, que decidimos para o bem e para o mal tão prontamente quanto um rio decide correr colina abaixo; ou a nossa natureza e a nossa formação estão tão bem equilibradas que dificilmente podemos decidir.
No caso de Macbeth a competição é clara e fácil de seguir. Ele era ambicioso e o seu meio ensinou-lhe a olhar a coroa como uma possessão gloriosa e desejável. Mas o meio também lhe ensinou que o assassinato, a traição e a ingratidão são perversos e deploráveis.
Se nunca lhe tivessem ensinado estas lições ou se lhe tivessem ensinado que a gratidão é uma tolice, que a honra é uma fraqueza, e que o assassinato é desculpável quando leva ao poder, ele não teria de todo hesitado. Foi o seu meio que impediu a sua vontade....
A acção da vontade depende sempre da força relativa de dois ou mais motivos. O motivo mais forte decide a vontade; tal como o peso mais pesado decide o equilíbrio dos pratos de uma balança….
Como podemos, então, acreditar que o livre-arbítrio é exterior e superior à hereditariedade e ao meio? ...
"O quê! Um homem não pode ser honesto se escolher sê-lo?" Sim, se escolher sê-lo. Mas essa é apenas outra forma de dizer que ele pode ser honesto se a sua natureza e a sua formação o levarem a escolher honestamente.
"O quê! Não posso satisfazer-me quer beba ou me abstenha de beber?" Sim. Mas isso é apenas dizer que não irás beber porque te apraz estar sóbrio. Mas apraz a outro homem beber, porque o seu desejo por bebida é forte ou porque a sua auto-estima é fraca.
E tu decides como decides e ele decide como decide, porque tu és tu e ele é ele; e a hereditariedade e o meio fizeram de ambos o que são.
E o homem sóbrio pode passar por tempos maus e perder a auto-estima, ou achar o fardo dos seus problemas maior do que aquilo que ele pode aguentar e cair na bebida para se consolar ou esquecer, e tornar-se um bêbado. Não acontece isto frequentemente?
E o bêbado pode, devido a algum choque, ou a algum desastre, ou a alguma paixão, ou a alguma persuasão, recuperar a auto-estima e renunciar à bebida e levar uma vida sóbria e útil. Não acontece isto frequentemente?
E em ambos os caso a liberdade da vontade permanece intacta: é a mudança no meio que eleva os caídos e lança os honrados por terra.
Podemos dizer que a vontade de uma mulher é livre e que ela poderia, se o desejasse, saltar de uma ponte e afogar-se. Mas ela não pode desejar. Ela é feliz, ama a vida e teme o rio frio e rastejante. E no entanto, devido a alguma cruel volta da roda da fortuna, ela pode tornar-se pobre e infeliz; tão infeliz que odeia a vida e está ansiosa pela morte e, por isso, pode saltar para o temeroso rio e morrer.
A sua vontade é tão livre numa altura como na outra. Foi o meio que forjou a mudança. Antigamente ela não podia desejar morrer; agora não pode desejar viver.
Os apóstolos do livre-arbítrio acreditam que todos os homens são livres. Mas um homem pode apenas desejar aquilo que é capaz de desejar. E um homem é capaz de desejar aquilo que outro homem é incapaz de desejar. Negá-lo é negar os factos da vida mais comuns e mais óbvios....
Todos sabemos que podemos prever a acção de certos homens em certos casos, porque conhecemos os homens.
Sabemos que nas mesmas condições Jack Sheppard irá roubar e que Cardinal Manning não irá roubar. Sabemos que nas mesmas condições o marinheiro irá namoriscar com a empregada de balcão e o padre não irá; que o bêbado se embebedará, e o abstémio manter-se-á sóbrio. Sabemos que Wellington recusaria um suborno, que Nelson não fugiria, que Buonaparte agarrar-se-ia ao poder, que Abraham Lincoln seria leal ao seu país, que Torquemada não pouparia um herético. Porquê? Se a vontade é livre, como podemos estar certos, antes de o teste ocorrer, de como a vontade deve agir?
Simplesmente porque sabemos que a hereditariedade e o meio formaram e moldaram de tal modo os homens e as mulheres que em certas circunstâncias a acção das suas vontades é certa.
A hereditariedade e o meio tendo feito de um homem um ladrão, ele irá roubar. A hereditariedade e o meio tendo feito de um homem honesto, ele não irá roubar.
Quer dizer, a hereditariedade e o meio decidiram a acção da vontade antes de ter chegado a altura da vontade agir.
Sendo as coisas assim ― e todos sabemos que são assim ― o que acontece à soberania da vontade?
Deixemos qualquer homem que acredite que pode "agir como lhe agradar" perguntar a si mesmo por que lhe agrada e ele verá o erro da teoria do livre-arbítrio e irá compreender por que a vontade é escrava e não mestre do homem: porque o homem é o produto da hereditariedade e do meio e estes controlam a vontade.
Como queremos esclarecer tanto quanto possível este assunto, consideremos um ou dois exemplos familiares da acção da vontade.
Jones e Robinson encontram-se e têm um copo de whisky. Jones pergunta a Robinson se quer outro. Robinson diz, "não obrigado, chega um." Jones diz "está bem; tome outro cigarro." Robinson aceita o cigarro. Ora, temos aqui um caso em que um homem recusa uma segunda bebida, mas aceita um segundo cigarro. É porque iria gostar de fumar outro cigarro, mas não iria gostar de beber outro copo de whisky? Não. É porque sabe que é mais seguro não beber outro copo de whisky.
Como sabe ele que o whisky é perigoso? Ele aprendeu-o ― no seu meio.
"Mas ele poderia ter bebido outro copo se o tivesse desejado."
Mas ele não poderia ter desejado beber outro copo, porque havia algo que ele desejava mais ― estar seguro.
E por que quer ele estar seguro? Porque ele aprendeu ― no seu meio ― que era prejudicial, inútil, e indecoroso ficar bêbado. Porque ele aprendeu ― no seu meio ― que é mais fácil evitar adquirir um mau hábito do que eliminar um mau hábito uma vez adquirido. Porque ele deu valor à boa opinião dos seus vizinhos e à sua posição e perspectivas de futuro.
Estes sentimentos e este conhecimento governaram a sua vontade e fizeram-no recusar o segundo copo.
Mas não há nenhum sentimento de perigo, nenhuma lição bem aprendida de risco para impedir a sua vontade de fumar outro cigarro. A hereditariedade e o meio não o previnem contra isso. Assim, para agradar ao seu amigo e a si mesmo, ele aceitou.
Agora supõe que Smith oferece a Williams outro copo. Williams aceita, bebe vários copos e vai depois para casa ― como frequentemente vai para casa. Porquê?
Em grande medida porque tem o hábito de beber. Não só a mente repete instintivamente uma acção, como, no caso da bebida, uma grande ânsia física é activada e o cérebro enfraquecido. É mais fácil recusar o primeiro copo do que o segundo; mais fácil recusar o segundo do que o terceiro; e muito mais difícil para um homem que frequentemente se embebeda manter-se sóbrio.
Assim, quando o pobre Williams tem de fazer a sua escolha, tem o hábito contra ele, tem uma grande ânsia física contra ele e tem um cérebro enfraquecido com que pensar.
"Mas, Williams poderia ter recusado o primeiro copo."
Não. Porque, no seu caso, o desejo de beber, ou de agradar a um amigo, era mais forte do que o seu medo do perigo. Ou pode não ter tido tanta consciência do perigo quanto Robinson. Ele pode não ter sido tão bem ensinado, ou pode não ter sido tão sensato, ou pode não ter sido tão cuidadoso. De modo que a sua hereditariedade e o seu meio, o seu temperamento e a sua formação, o levaram a tomar a bebida com tanta certeza quanto a hereditariedade e o meio de Robinson o levaram a recusar.
E agora é a minha vez de fazer uma pergunta. Se a vontade é "livre", se a consciência é um guia seguro, como é que o livre-arbítrio e a consciência de Robinson o fizeram manter-se sóbrio, enquanto o livre-arbítrio e a consciência de Williams o fizeram embebedar-se?
A vontade de Robinson foi contida por certos sentimentos que não conseguiram conter a vontade de Williams. Porque no caso de Williams os sentimentos no outro sentido eram mais fortes.
Foi a natureza e a formação de Robinson que o fizeram recusar o segundo copo e foi a natureza e a formação de Williams que o fizeram beber o segundo copo.
O que teve o livre-arbítrio a ver com isto?
Disseram-nos que todos os homens têm um livre-arbítrio e uma consciência.
Ora, se Williams tivesse sido Robinson, isto é, se a sua hereditariedade e o seu meio tivessem sido exactamente como os de Robinson, ele teria agido exactamente como Robinson agiu.
Foi porque a sua hereditariedade e o seu meio não eram o mesmo que o seu acto não foi o mesmo.
Tinham ambos livre-arbítrio. O que levou um a fazer aquilo que o outro se recusou a fazer? Hereditariedade e meio. Para inverter a sua conduta teríamos de inverter a sua hereditariedade e o seu meio....
Dois rapazes têm um emprego difícil e desagradável. Um deixa esse emprego e arranja outro, "sobe na vida" e é elogiado por ter subido na vida. O outro mantém-se naquele emprego toda a sua vida, trabalha muito toda a sua vida e é respeitado como um trabalhador honesto e humilde; quer dizer, ele é visto pela sociedade como Mr. Dorgan era visto por Mr. Dooely ― "ele é um excelente homem, mas eu desprezo-o."
O que faz com que estas duas vontades livres sejam tão diferentes? Um rapaz sabia mais do que o outro. Ele "conhecia mais." Todo o conhecimento é meio. Os dois rapazes tinham livre-arbítrio. Era no conhecimento que diferiam: meio!
Aqueles que exaltam o poder da vontade e menosprezam o poder do meio desmentem as suas palavras pelos seus actos.
Porque eles não mandariam os seus filhos para o meio de más companhias ou permitiriam que eles lessem maus livros. Não diriam que as crianças têm livre-arbítrio e, portanto, o poder de agarrar o bom e largar o mau.
Sabem muito bem que um mau meio tem o poder de perverter a vontade e que um bom meio tem o poder de a dirigir pelo bom caminho.
Eles sabem que as crianças podem ser tornadas boas ou más por uma boa ou má formação e que a vontade segue a formação.
Sendo assim, eles devem também admitir que os filhos das outras pessoas podem ser bons ou maus por formação.
E se uma criança tem uma má formação, como pode o livre-arbítrio salvá-la? Ou como pode ela ser censurada por ser má? Nunca teve oportunidade de ser boa. Que sabem isto é provado pelo cuidado que colocam em providenciar aos seus próprios filhos um meio melhor.
Como disse antes, cada igreja, cada escola, cada lição de moral é uma prova de que os pregadores e os professores confiam no bom meio, e não no livre-arbítrio, para tornar as crianças melhores.
Nesta, como em muitas outras matérias, as acções falam mais alto do que as palavras.
Isto, espero eu, desata os muitos nós com que milhares de homens eruditos ataram o tema simples do livre-arbítrio e destrói a alegação de que o homem é responsável porque a sua vontade é livre. Mas há uma outra causa de erro, relacionada com este assunto acerca da qual gostaria de dizer umas quantas palavras.
Ouvimos frequentemente dizer que um homem deve ser censurado pela sua conduta porque "ele conhece melhor."
É verdade que os homens agem erradamente quando conhecem melhor. Macbeth "conhecia melhor" quando assassinou Duncan. Mas também é verdade que frequentemente pensamos que um homem "conhece melhor" quando ele não conhece melhor.
Porque não se pode dizer que um homem conhece uma coisa enquanto não acreditar nela. Se me disserem que a Lua é feita de queijo verde, não se pode dizer que sei que é feita de queijo verde.
Muitos moralistas parecem confundir a palavra "conhecer" com a palavra "ouvir".
Jones lê novelas e toca música de ópera ao Domingo. O Puritano diz que Jones "conhece melhor" quando quer dizer que disseram a Jones que é errado fazer essas coisas.
Mas Jones não sabe que isso é errado. Ele ouviu alguém dizer que é errado, mas não acredita nisso. Portanto, não é correcto dizer que ele sabe.
E igualmente no que respeita à crença. Alguns moralistas sustentam que é mau não acreditar em certas coisas e que os homens que não acreditam nessas coisas serão punidos.
Mas um homem não pode acreditar numa coisa que lhe dizem para acreditar; ele pode apenas acreditar numa coisa em que ele pode acreditar; e ele pode apenas acreditar naquilo que a sua própria razão lhe diz que é verdade.
Seria inútil pedir a Sir Roger Ball que acredite que a Terra é plana. Ele não poderia acreditar nisso.
É inútil pedir a um agnóstico que acredite na história de Jonas e da baleia. Ele não poderia acreditar nela. Ele pode fingir que acredita. Ele pode tentar acreditar nela. Mas a sua razão não lhe permitiria acreditar nela.
Portanto, é um erro dizer que um homem "conhece melhor" quando lhe disseram "melhor" e ele não pode acreditar no que lhe disseram.
Essa é uma questão simples e parece muito banal; mas quanta má-vontade, quanta intolerância, quanta violência, perseguições e assassinatos foram causados pela estranha ideia de que o homem é mau porque a sua razão não pode acreditar no que para outra razão humana [é] absolutamente verdade.
O livre-arbítrio não tem qualquer poder sobre as crenças de um homem. Um homem não pode acreditar por querer, mas apenas por convicção. Um homem não pode ser forçado a acreditar. Podes ameaçá-lo, feri-lo, bater-lhe, queimá-lo; e ele pode ser assustado, irritado ou atormentado; mas não pode acreditar, nem se pode obrigá-lo a acreditar. Até que seja convencido.
Ora, embora isto possa parecer um truísmo, penso que é necessário dizer aqui que um homem não pode ser convencido nem pela ofensa nem pelo castigo. Ele pode apenas ser convencido pela razão.
Sim. Se queremos que um homem acredite numa coisa, teremos de encontrar umas quantas razões mais poderosas do que um milhão de pragas ou um milhão de baionetas. Queimar um homem vivo por não acreditar que o Sol gira em torno da Terra não é convencê-lo. O fogo é penetrante, mas não lhe parece ser relevante para a questão. Ele nunca duvidou de que o fogo queima; mas talvez os seus olhos moribundos possam ver o Sol a pôr-se no Oeste, à medida que o mundo gira no seu eixo. Ele morre com a sua crença. E não conhece "melhor".

Tradução de Álvaro Nunes

Robert Blatchford, Not Guilty, Albert and Charles Boni, Inc., 1913.

5 de jun de 2008

Kial ne?!

Kial ne?
Kial ne ĵetiĝi haste
en la kirlon de diboĉo,
kial ne mankapti draste
kaj ne trinki ĝojo-vinon? --
Ja la fino
venos mem.

Venos mem
lasta horo iam gaste,
for nin vokos fata voĉo ...
Fratoj, hej! ne sidu faste!
Verŝu, trinku fajran vinon
ĝis al fino!
Kial ne?!

(Nikolajs Kurzens)

Fonte: Poemoj de N. KURZENS

Conselhos e Máximas



Conselhos e Máximas - Aforismo §1 - Arthur Schopenhauer



Considero como a regra suprema de toda a sabedoria de vida a sentença enunciada por Aristóteles em sua Moral a Nicômaco (VII. 12): Quod dolore vacat, non quod suave est, persequitur vir prudens. [o sábio busca a ausência de dor, não a felicidade] A verdade dessa sentença se fundamenta no fato de que todo prazer e toda felicidade são de natureza negativa, e a dor é, pelo contrário, de natureza positiva. Pode-se encontrar um exame detalhado do assunto em minha obra capital, vol. I, § 58; não obstante, quero ilustrá-lo também por um fato de observação cotidiana. Quando nosso corpo inteiro está saudável e intacto, exceto por uma parte insignificante ferida ou dolorida, a consciência cessa de perceber a saúde do conjunto, e a atenção se dirige constantemente à dor da parte lesionada, e todo o conforto e prazer da vida desvanecem. Do mesmo modo, quando todos os nossos negócios andam bem, a não ser um só que vá mal, este nos persegue constantemente o cérebro, ainda que seja de mínima importância. Pensamos sobre ele constantemente e damos pouca atenção às demais coisas mais importantes que andam a nosso gosto. Em ambos os casos, a vontade está lesionada, no primeiro, tal como se objetiva no organismo, no segundo, tal como se objetiva nos esforços e aspirações do homem. Vemos em ambos os casos que a satisfação da vontade sempre se produz negativamente e que, em conseqüência, não é sentida diretamente de modo algum; no máximo, chegamos a ter consciência disso através da reflexão. Por outro lado, o que obstrui a vontade é algo positivo e, portanto, sua presença faz-se sentir. Todo prazer consiste apenas em suprimir essa obstrução, em libertar-se dela e, por conseguinte, não pode ser senão de curta duração.

É aqui, pois, em que se fundamenta a excelente regra de Aristóteles reproduzida anteriormente, a qual afirma que devemos concentrar nossa atenção não nos grandes prazeres e diversões da vida, senão nos meios de evitar, na medida do possível, os seus inumeráveis males. Se esse caminho não fosse o verdadeiro, o aforismo de Voltaire Le bonheur n’est qu’un rêve, et la douleur est reelle [A felicidade é apenas um sonho e a dor é real] seria necessariamente tão falso quanto, na verdade, é exato. Assim, quando se quer fazer o balanço da vida em termos eudemonológicos, não se deve levar em conta os prazeres que se tem saboreado, senão os males que se tem evitado. Na verdade, a eudemonologia deve começar por ensinar-nos que seu próprio nome é um eufemismo e que quando dizemos “viver feliz” deve-se entender somente “ser menos desgraçado”, ou seja, levar uma vida tolerável. E em realidade a vida não é algo a ser desfrutado, mas vencido, superado. Isso pode ser visto em muitas expressões, tais como degere vitam, vita defungi [vive a vida, a vida se acaba]; em italiano, si scampa così [se ao menos escapássemos]; em alemão, man muss suchen, durchzukommen [levar a vida do melhor modo possível]; er wird schon durch die Welt Kommen [passar a vida] e outras semelhantes. Na velhice é um consolo saber que se tem detrás de si o trabalho de viver. O homem mais feliz é, pois, aquele que passa a vida sem grandes dores, tanto moralmente como fisicamente, e não aquele que experimentou as alegrias mais vivas ou os gozos mais intensos. Querer medir por meio disso a felicidade de uma existência é recorrer a uma medida falsa. Pois os prazeres são e permanecem negativos; pensar que nos tornam felizes é uma idéia errônea cultivada apenas pelos invejosos, em seu próprio detrimento. A dor, pelo contrário, é sentida positivamente; logo, sua ausência é a medida da felicidade. Se a um estado livre de dor acrescenta-se a ausência de tédio, então se alcança a felicidade na terra no que tem de essencial; o resto não é mais que quimera. Segue-se daí que nunca se devem comprar prazeres à custa de dores, tampouco do risco, visto que isso seria pagar algo negativo e quimérico com algo positivo e real. Em contrapartida, há benefício em sacrificar prazeres para evitar dores. Em ambos os casos, é indiferente se as dores seguem ou precedem os prazeres. Não existe verdadeiramente loucura maior que querer transformar este teatro de misérias e lamentos em um lugar de prazer e buscar prazeres e alegrias, como tantos fazem, em vez de tratar de evitar a maior quantidade possível de dores. Há alguma sabedoria naquele que, com um olhar sombrio, considera este mundo como uma espécie de inferno, e não se ocupa mais que de proporcionar-se um abrigo onde esteja a salvo das chamas. O tolo corre atrás dos prazeres da vida e colhe desilusões; o sábio evita os seus males. Quando, apesar desses esforços, não se consegue evitá-lo, a culpa é do destino, não de sua tolice; porém, na medida em que o consiga, não será desiludido, porque os males que houver evitado são muito reais. Ainda que seu esforço em evitá-los tenha sido excessivo, sacrificando prazeres desnecessariamente, não perdeu nada realmente; pois todos os prazeres são ilusórios, e lamentar por sua perda seria mesquinho, e mesmo ridículo. A incapacidade – encorajada pelo otimismo – de apreender essa verdade é a fonte de muitas desgraças. Assim, nos momentos em que estamos livres de dores, desejos inquietos fazem brilhar à nossa vista as quimeras de uma felicidade que não tem existência real e nos seduzem a persegui-las; com isso atraímos a dor, que é indiscutivelmente real. Então lamentamos a perda desse estado de ausência de dor que, como um paraíso perdido, ficou para trás, e em vão tentamos reverter o que está feito. Parece que um espírito maligno, com visões de nossos desejos, ocupa-se constantemente em nos distanciar do estado de ausência de sofrimento, da felicidade suprema e real. O jovem irrefletido imagina que o mundo existe para ser desfrutado; que é a morada de uma felicidade positiva; que os homens não a alcançam porque são incapazes de superar as dificuldades. Sua crença é reforçada pelos romances e poesias, e por essa hipocrisia que o mundo exibe onde quer que seja e sempre em favor das aparências, assunto ao qual retornarei em breve. Daí em diante, sua vida é uma busca mais ou menos deliberada de uma felicidade positiva que, como tal, diz-se consistir de prazeres positivos. Não devemos esquecer os perigos aos quais se expõe nessa busca pela felicidade. Isso leva à persecução de coisas que não existem de maneira alguma e, em regra, acaba por conduzir a uma desgraça muito real e positiva, que se manifesta como dores, sofrimentos, enfermidades, perdas, cuidados, pobreza, desonra e outras mil calamidades. O desengano chega tarde demais. Se, pelo contrário, se obedece à regra aqui exposta, se o projeto de vida é dirigido com o fim de evitar o sofrimento, ou seja, se manter afastado da necessidade, da enfermidade e de qualquer outra moléstia, então o objetivo é real. Assim, será possível alcançar algo, e tanto mais na medida em que o plano não for atrapalhado pela persecução dessa quimera da felicidade positiva. Isso concorda com a passagem de Goethe, em Wahlverwandtschaften [as afinidades eletivas], na qual Mittler, que sempre tenta levar felicidade aos demais, diz: Aquele que quer livrar-se de um mal sempre sabe o que quer; aquele que busca mais do que tem, é mais cego que um acometido pela catarata. O que recorda esse belo adágio francês: le mieux est l’ennemi du bien [o melhor é inimigo do bem]. Daí se pode deduzir igualmente a idéia fundamental do cinismo, como demonstrei em minha obra capital, volume II, capítulo 16. Pois o que os levava a rechaçar todos os prazeres senão o pensamento das dores que os acompanham? Evitar a dor lhes parecia muito mais importante que obter prazer. Estavam profundamente penetrados e convencidos da natureza negativa do prazer e da natureza positiva da dor. Faziam todo o possível para evitar os males; mas, para tal fim, julgavam necessário rejeitar íntegra e intencionalmente os prazeres, que consideravam como armadilhas que nos conduziam ao sofrimento.

Sem dúvida, nascemos todos em Arcádia, como disse Schiller; isto é, começamos a vida cheios de aspirações à felicidade, ao prazer, e abrigamos a insensata esperança de realizá-las. Entretanto, em regra, chega o ponto em que o destino nos agarra bruscamente e nos ensina que nada é nosso, senão seu, visto que tem um direito indiscutível não apenas sobre tudo o que possuímos e adquirimos, sobre mulher e filhos, mas até sobre nossos braços e pernas, nossos olhos e ouvidos, e até sobre o nariz no meio da cara. Em todo caso, a experiência não tarda em fazer-nos compreender que felicidade e prazer são uma fata Morgana, que, visível somente de longe, desaparece quando nos aproximamos. Em contrapartida, compreendemos que o sofrimento e dor são uma realidade, a qual faz sua presença ser sentida sem qualquer intermediário, sem necessidade de ilusões ou expectativas. Se a lição dá seus frutos, desistimos de correr atrás da felicidade e do prazer, dedicando-nos a nos assegurar dos ataques da dor e do sofrimento. Reconhecemos, então, que o melhor que esse mundo pode oferecer-nos é uma existência sem dores, tranqüila, tolerável, na qual restringimos nossos anseios àquilo que estamos mais certos de poder alcançar. Porque o meio mais seguro para não chegar a ser muito infeliz é não desejar ser muito feliz. Merck, o amigo de juventude de Goethe, reconheceu essa verdade, posto que escreveu: Tudo neste mundo é desgraçado pela ânsia excessiva à felicidade, numa medida que, de fato, corresponde aos nossos sonhos. Aquele que pode livrar-se dela e só aspira ao que tem diante de si, esse poderá abrir passagem entre a ralé (Briefe na und von Merck, p. 100). É, pois, prudente reduzir a proporções muito modestas nossas pretensões aos prazeres, às riquezas, às posições, às honras etc., porque essa disputa e luta pela felicidade, pelo esplendor e pelos prazeres é o que nos traz os maiores infortúnios. Reduzir nossas pretensões é prudente e desejável porque é bastante fácil ser completamente desgraçado, enquanto não é apenas difícil ser muito feliz, mas completamente impossível. O poeta da sabedoria de vida disse com razão:

Auream quisquis mediocritatem
Diligit, tutus caret obsoleti
Sordibus tecti, caret invidenda
Sobrius aula.
Saevius ventis agitatur ingens
Pinus: et celsae graviore casu
Decidunt turres: feriuntque summos
Fulgura montes.

[Todo aquele que escolhe a áurea mediana está livre dos cuidados de um teto miserável, e não inveja, sóbrio, os esplendores dos palácios. Acometidos pela tempestade, o alto pinheiro é agitado pelos ventos, as mais elevadas torres desmoronam com estrondo e os cimos dos montes são feridos pelos raios. (Horácio, Odes, II. 10. 5-12.)]

Aquele que, imbuído dos ensinamentos da minha filosofia, sabe que toda nossa existência é uma coisa que melhor fora que não existisse e que a suprema sabedoria consiste em negá-la e em rejeitá-la, não nutrirá grandes expectativas em relação a coisa alguma; não perseguirá com paixão nada no mundo, e tampouco levantará grandes queixas quando falhar em qualquer empreendimento. Pelo contrário, reconhecerá a profunda veracidade das palavras de Platão: Nenhuma das coisas humanas é digna de tanta urgência (República, X. 604). Vejamos o lema do Gulistan de Saadi, o poeta persa, traduzido por Graf:

Ist einer Welt Besitz für dich zerronnen,
Sei nicht in Leid darüber, es ist nichts;
Und hast du einer Welt Besitz gewonnen,
Sei nicht erfreut darüber, es ist nichts.
Vorüber gehn die Schmerzen und die Wonnen,
Geh an der Welt vorüber, es ist nichts.
Anwari Soheili.

[Hás perdido o império do mundo? Não te aflijas; isso não é nada. Hás conquistado o império do mundo? Não te regozijes; isso não é nada. Dores e felicidades, tudo passa, passa ao lado do mundo; isso não é nada.]

O que aumenta particularmente a dificuldade de chegar a essas perspectivas tão elevadas é a hipocrisia do mundo, já mencionada acima, e nada seria tão útil como desmascará-la ainda na juventude. Em sua maioria, as magnificências são, como decorações de teatro, puras aparências, e falta a própria essência da coisa. Navios decorados com bandeiras hasteadas, saudações de canhão, iluminações, tambores e trombetas, gritos de alegria, aplausos etc., tudo isso é o sinal exterior, o indício, a sugestão, o hieróglifo do júbilo ou alegria. Mas é bem aqui onde raramente se encontra a alegria; só ela se recusou a comparecer ao festival. Onde realmente se apresenta, chega, comumente, sem ser convidada ou anunciada, vem por si mesma e sans façon [sem cerimônias]. Freqüentemente, introduz-se, em silêncio, nas ocasiões mais insignificantes e banais, nas circunstâncias mais corriqueiras do dia-a-dia; isto é, em qualquer lugar, exceto na companhia do brilho e da glória. Como o ouro na Austrália, encontra-se dispersa aqui e acolá, segundo o capricho do acaso, sem regra nem lei, as mais das vezes em pequenos grãos, e muito raramente em grandes quantidades. Mas o objetivo de tudo isso é fazer os demais acreditarem que alegria deu as caras; produzir essa ilusão em suas mentes é a intenção. Sucede com a tristeza o mesmo que com a alegria. Como são tristes e melancólicas as longas e vagarosas procissões funerais! Uma fila interminável de carruagens. Porém, olhemos um pouco no interior; estão todas vazias, e o defunto é escoltado até a sepultura apenas pelos coveiros da cidade. Uma imagem eloqüente da amizade e da consideração neste mundo! Isso é o que chamo falsidade, indignidade e hipocrisia da conduta humana. Temos também um exemplo nas recepções solenes com os numerosos convidados em trajes finos; isso quase nos faz acreditar que se trata de companhias nobres e distintas. Mas, em vez disso, os verdadeiros convidados são a compulsão, a dor e o tédio; porque onde há muitos convidados, há muita gentalha, ainda que todos carreguem estrelas no peito. Com efeito, a verdadeira boa sociedade em todo lugar é necessariamente muito restrita. Entretanto, em geral, essas festas espalhafatosas e diversões barulhentas sempre levam em si algo que soa oco, ou, melhor dizendo, que soa falso, pois contradizem escandalosamente a miséria e a aridez de nossa existência, e o contraste ressalta a verdade. Não obstante, visto de fora, tudo isso surte efeito, e é exatamente esse o objetivo. Chamfort fez a excelente observação de que la société, les cercles, les salons, ce qu’on appelle le monde, est une pièce misérable, un mauvais opéra, sans intérêt, qui se soutient un peu par les machines, les costumes et les décorations. [A sociedade, os círculos, os salões, o que se chama alta sociedade, é uma peça miserável, uma ópera ruim, sem interesse, que se sustenta somente pelas máquinas, pelos trajes e as decorações]. Sucede o mesmo em relação às academias e as cadeiras de filosofia; essas são os sinais, o simulacro exterior da sabedoria; mas esse é outro convidado que recusou o convite, e encontra-se num lugar bastante diverso. O constante repique de sinos, os trajes sacerdotais, o porte piedoso e as gesticulações grotescas são o simulacro exterior, o semblante falso da devoção, e assim por diante. Assim, quase todas as coisas deste mundo podem chamadas nozes vazias; a noz é rara por si mesma, e ainda mais raro é encontrá-la dentro da casca. Temos de buscá-la em outros lugares; normalmente só a encontramos por acaso.

4 de mai de 2008

O Poeta da MTV




Quando fico de pau duro
Sinto-me Deus
Não Deus como Zeus no Olimpo
Deus como Jesus
Como o homem no garimpo ao achar a maior pepita
Como o médico que o cardíaco ressuscita
Sinto-me Deus
Sinto-me forte
Sinto o poder
Toda a grandeza de ser de um povo
Sinto-me um ovo fecundado
Como um viado ao dar o rabo
Sinto-me alado
Sinto-me sábio
Sinto-me luz cuspida de meus lábios
Sinto a explosão dos teus
Quando me coloco Deus
No meio de tuas pernas

(Cazé Peccini)

Fonte: Se Meu Blog Falasse

30 de abr de 2008

Invictus

É de morte

De quem são os versos usados
pelo terrorista McVeigh

Não é fácil ser poeta. É preciso cortejar as musas, lutar contra a indiferença do público e a maldade dos críticos. Com sorte, alguns de seus versos sobrevivem e chegam às gerações futuras. Mas nem aí sua obra está a salvo. Quando menos se espera, um assassino resolve lançar mão dela. Foi o que ocorreu com o poeta inglês William Ernest Henley (1849-1903) na segunda-feira da semana passada. Nesse dia, pouco antes de ser executado com uma injeção letal, o terrorista americano Timothy McVeigh, responsável pelo atentado que matou 168 pessoas em Oklahoma seis anos atrás, ouviu a pergunta de praxe: "Você quer dizer suas últimas palavras?". Calado, ele estendeu ao policial uma folha com um poema escrito a mão. Em tradução literal, os últimos versos diziam: "Não importa o quão difícil a passagem/ A quantidade de condenações que recaiam sobre mim/ Eu sou o mestre do meu destino/ Eu sou o capitão da minha alma". Não, a iminência da morte não transformou McVeigh em bardo. Na verdade, ele tomou emprestados os versos do poema Invictus, obra mais famosa de Henley. No fim do século XIX, esse venerável cavalheiro vitoriano era uma das principais figuras do meio literário de seu país. Editou os primeiros escritos de autores como Thomas Hardy, George Bernard Shaw e H.G. Wells. Também foi grande amigo do romancista Robert Louis Stevenson, que se inspirou nele, que havia perdido um pé por causa de uma doença, para criar o pirata aleijado Long John Silver, personagem do livro A Ilha do Tesouro. De sua própria lavra, o escritor produziu, além de poemas, ensaios – um dos quais, curiosamente, contra Stevenson. Pobre Henley. Dedicou a vida a promover a cultura. Acabou usado para glamourizar um bárbaro.

Fonte: VEJA on-lne - Edição 1 705 - 20 de junho de 2001


Invictus

by William E Henley

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate;
I am the captain of my soul.

Invictus

(Título Original: "Invictus")

Autor: William E Henley
Tradutor: André C S Masini

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

Copyright © André C S Masini, 2000
Todos os direitos reservados. Tradução publicada originalmente
no livro "Pequena Coletânea de Poesias de Língua Inglesa"


O Autor:

William Ernest Henley, nasceu em Gloucester, Inglaterra, em 23 de agosto de 1849, primogênito de seis irmãos, filho de um modesto vendedor de livros. Apesar da difícil condição financeira, seu pai conseguiu enviá-lo para uma escola secundária, Crypt Grammar School, que não pode concluir por motivos de saúde e financeiros. Tinha apenas doze anos de idade quando foi diagnosticada sua artrite decorrente do bacilo da tuberculose. Aos dezesseis teve a perna esquerda amputada abaixo do joelho. Em 1867, perdeu seu pai, tornando-se arrimo de sua mãe viúva e de seus irmãos. Em 1869 mudou-se para Londres onde conseguiu emprego como jornalista autônomo. Em 1872 sua doença o compeliu a viajar em tratamento para Edimburgo, Escócia, onde escreveu a coleção de poemas In Hospital e se apaixonou por Anna Boyle, com quem viria a se casar. Em 1875 tornou-se amigo íntimo de Robert Louis Stevenson que fora levado ao hospital para lhe conhecer. Nesse mesmo ano teve alta e retornou a Londres, onde se tornou editor da revista London. Em 1878 casou-se com Anna Boyle com quem teve sua única filha, Margaret, em 1888, que faleceu de meningite apenas 5 anos depois. Em 1889, tornou-se editor da revista Scots Observer, onde, nesse mesmo ano, escreveu uma crítica desfavorável de O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde que desencadeou uma célebre controvérsia entre ambos. Henley era um homem entusiasmado e apaixonado, com opiniões veementes e emoções intensas, e teve discussões com muitos outros contemporâneos. Permaneceu como editor de Scots Observer (cujo nome havia mudado para “National Observer”) até 1894, após o que morou em várias cidades inglesas com sua esposa. Morreu em 1903 de tuberculose.

Copyright © André C S Masini, 2000
Essa biografia é obra registrada, com todos os direitos reservados, publicada
originalmente no livro "Pequena Coletânea de Poesias de Língua Inglesa"




8 de abr de 2008

A Felicidade - Tom Jobim





A Felicidade

Tom Jobim

Composição: Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Prá que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor

Tristeza não tem fim
Felicidade sim