26 de jan de 2007

O Gênio da Multidão

(1920 - 1994)


The Genius Of The Crowd

por Charles Bukowski


there is enough treachery, hatred violence absurdity in the average
human being to supply any given army on any given day

and the best at murder are those who preach against it
and the best at hate are those who preach love
and the best at war finally are those who preach peace

those who preach god, need god
those who preach peace do not have peace
those who preach peace do not have love

beware the preachers
beware the knowers
beware those who are always reading books
beware those who either detest poverty
or are proud of it
beware those quick to praise
for they need praise in return
beware those who are quick to censor
they are afraid of what they do not know
beware those who seek constant crowds for
they are nothing alone
beware the average man the average woman
beware their love, their love is average
seeks average

but there is genius in their hatred
there is enough genius in their hatred to kill you
to kill anybody
not wanting solitude
not understanding solitude
they will attempt to destroy anything
that differs from their own
not being able to create art
they will not understand art
they will consider their failure as creators
only as a failure of the world
not being able to love fully
they will believe your love incomplete
and then they will hate you
and their hatred will be perfect

like a shining diamond
like a knife
like a mountain
like a tiger
like hemlock

their finest art


Tradução

O Gênio da Multidão

(The Genius of the Crowd, por Charles Bukowski)


Há bastante traição, ódio, violência, absurdidade no ser humano medíocre para suprir qualquer tipo de exército num determinado dia.

E o máximo do assassinato são aqueles que pregam contra ele.

E o máximo do ódio são aqueles que pregam o amor.

E o máximo da guerra são aqueles que pregam a paz.

Aqueles que pregam Deus, necessitam de Deus.

Aqueles que pregam a paz não têm paz.

Aqueles que pregam a paz não têm amor.

Cuidado com os pregadores.

Cuidado com os conhecedores.

Cuidado com aqueles que estão sempre a ler livros.

Cuidado com aqueles que ou detestam a pobreza ou estão orgulhosos dela.

Cuidado com aqueles que são pressurosos em elogiar,

pois eles necessitam de louvores em troca.

Cuidado com aqueles que são pressurosos em censurar: eles temem o que não conhecem.

Cuidado com aqueles que procuram constantemente multidões porque não estão nada sozinhos.

Cuidado com o homem medíocre, com a mulher medíocre.

Cuidado com o amor deles; o amor deles busca a mediocridade.


Mas há gênio em seu ódio.

Há bastante gênio em seu ódio para matar-te,

para matar qualquer um.

Por não querer a solidão,

por não compreender a solidão,

tentarão destruir qualquer coisa que difira deles próprios.

Por não serem capazes de criar arte,

eles considerarão sua própria falha como criadores

somente como defeitos do mundo.

Não sendo capazes de amar plenamente,

acreditarão o teu amor incompleto

E então irão odiar-te.

E o ódio deles será perfeito.


Como um diamante brilhante

Como uma faca

Como uma montanha

Como um tigre

Como uma erva daninha.


Sua mais fina arte








17 de jan de 2007

A moral da criação e a moral da domesticação

Nietzsche (1844 - 1900)

A moral da criação e a moral da domesticação
por Friedrich Nietzsche

A moral da criação e a moral da domesticação são plenamente dignas uma da outra, no que concerne aos meios de se impor. Podemos apresentar como princípio mais elevado o seguinte: para levar a termo a moral é necessário ter a vontade incondicionada do contrário. Este é o grande problema, o problema sinistro, ao qual persegui mais longamente: a psicologia dos "melhoradores" da humanidade. Um fato diminuto e no fundo modesto, este da assim chamada pia fraus, abriu-me um primeiro acesso a este problema. A pia fraus foi a herança de todos os filósofos e sacerdotes que “melhoraram” a humanidade. Nem Manu, nem Platão, nem Confúcio, nem as doutrinas hebréias e cristãs jamais duvidaram de seu direito à mentira. Eles duvidaram de direitos totalmente diversos... Expresso em uma fórmula, poder-se-ia dizer: todos os meios, através dos quais até aqui a humanidade deveria se tornar moral, foram fundamentalmente imorais.


Fonte: NIETZSCHE, Friedrich. in Crepúsculo dos Ídolos, 5.


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Algumas opiniões coletadas sobre o tema acima tratado:

Moral: "Conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada." (dic. Aurélio)

Quando um comportamento será válido? Quando a sociedade presente o aceitar como correto.

Se o que é aceito muda de acordo com a sociedade, a moral é relativa a esta.

A mentira é aceita pela sociedade? Em uma sociedade que, por princípios, for intolerante à mentira, a mentira é sempre imoral. Logo, uma sociedade contra a mentira cujos preceitos morais sejam baseados nesta, terá uma moral contraditória.

Porém, se a mentira é aceita ou ao menos tolerada, mesmo uma mentira pode se constituir uma das bases da moral.

Pia fraus: "mentira ou logro perpetrado com boa intenção". Comentário pessoal: antes uma verdade funesta.

Uma mentira, por ser creditada, não deixa de ser mentira.
E algo não ser provado como falso não quer dizer que esse algo é verdadeiro.
Provem que não foi o Monstro Spaguetti Voador quem criou o Universo...!

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- Concordo com vocês e com Nietzsche, tudo o que foi tido até hoje como certo, como verdade moral, não passa de distorção da realidade, dos instintos humanos.
Moral=repressão dos instintos.

- A partir do momento em que o homem sente a extrema necessidade de ser mandado, ele se torna crente.

- senhores, cubro-vos de razao. A verdade está dependente da moral e esta da sociedade...
no entanto, lembro-vos que só o estado de anomia se apresenta em alternativa ao da sociedade, pelo que vos proponho que averigueis qual o mais propício aos vossos fins, isto é, a vocês próprios.
em sociedade as organizações mais igualitárias são a anarquia e a democracia. Mas a anarkia não é possível nesta forma, e não é igualitária nas suas outras, e a democracia acarreta certas imposições, tais como a liberdade e vontade soberanas dos restantes membros, que nos restringem a liberdade.

[posso expor a natureza dos regimes totalitários ou absolutos]

“Não é habilidade nenhuma ser compreensível a todos quando se desistiu de todo o exame em profundidade” - KANT, Fundamentação da Metafísica dos Costumes

Nietzsche - Vida e Obra


11 de jan de 2007

Schopenhauer: Do pensar por si

Arthur Schopenhauer (1788 - 1860)


Do pensar por si - Schopenhauer

Uma biblioteca pode ser muito grande, mas desordenada não é tão útil quanto uma pequena e bem organizada. Do mesmo modo, um homem pode possuir uma grande quantidade de conhecimento, mas se não o tiver trabalhado em sua mente por si, tem muito menos valor que uma quantidade muito menor que foi cuidadosamente considerada. Pois é somente quando um homem analisa aquilo que sabe em todos os aspectos, comparando uma verdade com outra, que se dá conta por completo de seu próprio conhecimento e adquire seu poder. Um homem só pode ponderar a respeito daquilo que sabe – portanto, deveria aprender algo; todavia, um homem só sabe aquilo sobre o que ponderou.

Ler e aprender são coisas que qualquer indivíduo pode fazer por seu próprio livre-arbítrio – mas pensar não. O pensar deve ser incitado como o fogo pelo vento; deve ser sustentado por algum interesse no assunto em questão. Esse interesse pode ser puramente objetivo ou meramente subjetivo. O último existe em questões que nos dizem respeito pessoalmente. O interesse objetivo encontra-se somente nas cabeças que pensam por natureza, para as quais pensar é tão natural quanto respirar – mas são muito raras; por isso há tão pouco dele na maioria dos homens do conhecimento.

A diferença entre o efeito do pensar por si e da leitura sobre a mente é incrível. Por isso está continuamente desenvolvendo a diferença original na natureza de duas mentes, que leva uma a pensar e a outra a ler. Ler força pensamentos alheios sobre a mente – pensamentos que são alheios ao estado e temperamento em que esta possa estar no momento, como o selo está para a cera, na qual estampa sua marca. A mente, deste modo, está inteiramente sob compulsão externa; é levada a pensar isto ou aquilo, apesar de que, no momento, talvez não tenha o menor impulso ou inclinação de fazê-lo.

Mas quando um homem pensa por si, segue o impulso de sua própria mente – seja pelo seu ambiente ou alguma lembrança particular determinada pelo momento. O mundo visível do ambiente de um homem não imprime – como a leitura faz – um único pensamento definido sobre sua mente, mas apenas o proporciona o material e a ocasião que o levam a pensar naquilo que é apropriado à sua natureza e temperamento presentes. Por esse motivo, muita leitura retira toda a elasticidade da mente; é como manter uma fonte continuamente sob pressão. Se um homem não quer pensar por si, o plano mais seguro é pegar um livro toda vez que não tiver nada para fazer. É esta prática que explica por que erudição torna a maior parte dos homens mais estúpidos e tolos do que são por natureza, e previnem que seus escritos obtenham qualquer nível de sucesso. Estes permanecem, como o papa disse, “Para sempre lendo, nunca para serem lidos” [Dunciad iii. 194].

Homens do conhecimento são aqueles que leram páginas de livros. Pensadores e homens de gênio são aqueles que foram diretamente ao livro da Natureza; foram estes que esclareceram o mundo e levaram a humanidade um passo adiante. De fato, apenas os pensamentos fundamentais de um homem têm veracidade e vida em si, pois estes são os únicos que compreende realmente e completamente. Ler os pensamentos de outrem é como recolher os restos de uma refeição para a qual não fomos convidados ou colocar as roupas que um estranho abandonou. O pensamento que lemos está para o pensamento que surge em nós assim como a impressão fossilizada de alguma planta pré-histórica está para uma planta florescendo na primavera.

Ler não é mais que um substituto para o pensar por si; significa permitir que sejam colocadas guias nos pensamentos. Ademais, muitos livros servem apenas para demonstrar quantos caminhos errôneos existem, e quão amplamente um homem pode ser descaminhado se se permitir guiar por estes. Mas aquele que é guiado pelo seu gênio, aquele que pensa por si, que pensa espontaneamente e precisamente, possui a única bússola pela qual pode se orientar corretamente. Portanto, um homem somente deveria ler quando a fonte de seus pensamentos estagnam – algo que ocorre freqüentemente mesmo com as melhores mentes. Por outro lado, pegar um livro com o propósito de afugentar os próprios pensamentos é um pecado contra o Espírito Santo. É como fugir da Natureza para observar um museu de plantas secas ou estudar uma bela paisagem em uma gravura.

Um homem pode ter alcançado alguma verdade ou sabedoria após ter devotado um grande tempo pensando por si sobre o assunto, interligando seus vários pensamentos, quando poderia ter encontrado o mesmo em um livro, poupando-o desse esforço. Mesmo assim, é cem vezes mais valioso que tenha o alcançado pensando por si. Pois é apenas quando alcançamos nosso conhecimento desse modo que este se introduz como uma parte integral, como um membro vivo no todo de nosso sistema de pensamento; que permanece em uma relação forte e completa com aquilo que sabemos; que é compreendido cabalmente com todas as suas implicações; que carrega a cor, a precisa sombra, a marca distintiva de nosso próprio modo de pensar; que chega precisamente na hora certa – quando dele sentimos necessidade; que se estabelece rapidamente e não pode ser esquecido. Esta é a perfeita aplicação – ou melhor, interpretação – do conselho de Goethe, de ganharmos nossa herança para que possamos realmente possui-la:

“O que o homem herda só o pode chamar seu quando o utiliza.”

[“Was du ererbt von deinen Vätern hast
Erwirb es um es zu besitzen.” Faust I. 329.]

O homem que pensa por si forma suas opiniões e apenas posteriormente aprende as autoridades sobre estas, quando servem somente para fortalecer sua crença nelas e em si. Mas o filósofo livresco parte das autoridades; lê os livros de outrem, coleta suas opiniões, e assim constitui um todo para si – de tal forma que se assemelha a um autômato, cuja composição não compreendemos. Contrariamente, aquele que pensa por si se empenha como um homem vivente feito pela Natureza. A mente pensante é alimentada pelo ambiente, a qual então forma e dá origem à sua criação.

A verdade que foi aprendida meramente como um membro artificial, um dente falso, um nariz de cera – ou, no melhor caso, um nariz feito de carne de outrem – adere em nós apenas porque foi encaixada; mas a verdade obtida através do próprio pensamento é como um membro natural – pertence-nos por si só. Esta é a diferença fundamental entre o pensador e o mero homem do conhecimento. Deste modo, as aquisições intelectuais do homem que pensa por si são como uma pintura refinada cheia de vida – na qual a luz e a sombra estão corretas, o tom é contínuo e a cor perfeitamente harmonizada. Por outro lado, as aquisições intelectuais do mero homem do conhecimento são como uma grande paleta cheia de todos os tipos de cores que, no máximo, estão organizadas sistematicamente, mas sem harmonia, relação e significado.

Ler é pensar com a cabeça de outrem em vez da própria. Pensar por si é esforçar-se para desenvolver um todo coerente – um sistema, mesmo que não seja estritamente completo; nada atrapalha mais esse objetivo que fortalecer a corrente de pensamento de outrem, como acontece por meio da leitura contínua. Esses pensamentos, surgindo cada qual de mentes distintas, pertencentes a diferentes sistemas, trazendo diferentes cores, nunca confluem para um todo intelectual; nunca constituem uma unidade de conhecimento, insight ou convicção; pelo contrário, abarrotam a mente com uma confusão babilônica de línguas. Conseqüentemente, a mente sobrecarrega-se de pensamentos alheios, perdendo toda a clareza conceitual e tornando-se predominantemente desorganizada. Esse estado de coisas é observável em muitos homens do conhecimento, o que os torna inferiores em compreensão sólida, julgamento correto e diplomacia prática a muitos indivíduos iliteratos que, por meio da experiência, conversação e alguma leitura, adquiriram um modesto conhecimento independentemente – e sempre o fizeram subordinado e incorporado aos seus próprios pensamentos.

O verdadeiro pensador científico faz o mesmo que esses indivíduos iliteratos, mas em uma escala muito maior. Mesmo necessitando de muito conhecimento e tendo de ler bastante, sua mente é poderosa o suficiente para dominar isso tudo – assimilá-lo e incorporá-lo ao seu sistema de pensamento, e assim subordiná-lo à unicidade orgânica de sua compreensão que, apesar de vasta, está sempre crescendo. Por meio desse processo seu pensamento, como o grave em um órgão, sempre domina tudo e nunca se perde entre os outros tons, como acontece com mentes que estão repletas de conhecimentos antiquados – onde todos os tipos de passagens musicais se misturam e o tom fundamental perde-se completamente.

Aqueles que passaram suas vidas lendo e obtiveram seu conhecimento de livros são como pessoas que conseguiram informações precisas sobre um país a partir da descrição de muitos viajantes. Tais pessoas podem falar muito sobre muitas coisas; mas, em seu íntimo, não têm um conhecimento conectado, claro e profundo da verdadeira condição do país. Aqueles que passaram suas vidas pensando são como os próprios viajantes; apenas estes sabem de fato do que estão falando – compreendem o assunto inteiramente e nisso sentem-se em casa.

O pensador está para o filósofo livresco assim como a testemunha ocular está para o historiador; o primeiro fala a partir de sua própria compreensão direta do assunto. É esse o motivo pelo qual todos aqueles que pensam por si, no fundo, chegam em grande parte às mesmas conclusões; quando divergem, isso ocorre porque adotam diferentes pontos de vista – e quando esses não afetam a questão, todos falam o mesmo. Estes simplesmente exprimem o resultado de sua compreensão objetiva das coisas. Há muitas passagens em minhas obras que apenas concedi ao público após alguma hesitação devido à sua natureza paradoxal; posteriormente tive a agradável surpresa de encontrar as mesmas opiniões registradas nos trabalhos de grandes homens de épocas anteriores.

O filósofo livresco meramente relata o que um indivíduo disse e o que outro quis dizer, ou as objeções levantadas por um terceiro, e assim por diante. Compara opiniões distintas, pondera, critica e tenta chegar à verdade da questão; nesse aspecto, assemelhando-se ao historiador crítico. Tentará, por exemplo, descobrir se Leibnitz foi por algum tempo um seguidor de Spinoza, e questões dessa natureza. O estudante curioso de tais assuntos encontrará exemplos notáveis do que quero dizer no Analytical Elucidation of Morality and Natural Right [Elucidação Analítica da Moralidade e do Direito Natural] de Herbart e no Letters on Freedom [Cartas sobre a Liberdade] do mesmo autor. É surpreendente que tal homem dê-se esse tipo de trabalho; pois é evidente que se houvesse fixado sua atenção no assunto teria logo apreendido seu objeto pensando por si. Mas há uma pequena dificuldade a ser superada – isso não depende de nossa vontade. Um homem sempre pode sentar-se e ler – mas não pensar. Pensamentos são como homens: não podemos invocá-los segundo nossa vontade – temos de esperar que venham. O pensamento sobre um assunto deve manifestar-se espontaneamente como uma feliz e harmoniosa combinação de estímulos externos com o temperamento mental e a atenção; e é justamente isso que nunca parece acontecer com tais pessoas.

Esta verdade pode ser ilustrada pelo que acontece em questões que concernem nosso interesse próprio. Quando é necessário chegar a uma resolução numa questão desse gênero, não podemos simplesmente sentar a qualquer momento, considerar as razões do caso e chegar a uma conclusão; pois, se tentamos fazê-lo, freqüentemente nos vemos incapazes, naquele momento particular, de manter nossa mente focada naquele assunto; esta vagueia a outras coisas; um repúdio pelo assunto às vezes é responsável por isso. Em tal caso, não devemos usar a força, mas aguardar que o estado mental adequado manifeste-se por si só; com freqüência este chega inesperadamente e mesmo repete-se; e a variedade de temperamentos nos quais o analisamos em diferentes momentos sempre coloca o assunto sob uma nova luz. Este é um longo processo que é compreendido pelo termo resolução madura. Pois a tarefa de chegar a uma conclusão precisa ser distribuída; no processo, muito daquilo que foi ignorado em um momento nos ocorre em outro; o repúdio desaparece quando percebemos – como ocorre comumente numa inspeção mais minuciosa – que as coisas não são tão ruins quando pareciam à primeira vista.

Esta regra aplica-se à vida do intelecto assim como às questões práticas – o homem deve aguardar pelo momento certo; nem a maior das mente é capaz de pensar por si todas as vezes. Portanto, uma grande mente faz bem em gastar seu tempo livre com leitura que, como disse, é um substituto para o pensamento próprio; novos materiais são importados à mente ao permitirmos que outrem pense por nós, apesar de que isso sempre seja feito de um modo distinto do nosso. Assim, um homem não deve ler em demasia a fim de que sua mente não se torne acostumada ao substituto e, conseqüentemente, esqueça a realidade; a fim de que não se acostume a seguir caminhos que já foram trilhados, seguindo um curso de pensamento alheio e esquecendo o próprio. De maneira nenhuma um homem deveria desviar sua atenção do mundo real em prol da leitura, pois o impulso e o estado que levam alguém a pensar por si procedem muito mais freqüentemente do mundo da realidade que do mundo dos livros. A vida real que um homem vê diante de si é o objeto natural do pensamento; e, em sua força como elemento primário da existência, pode com a maior facilidade incitar e influenciar a mente pensante.

Após essas considerações, não será surpreendente que um homem que pensa por si pode ser facilmente diferenciado do filósofo livresco pelo próprio modo como fala, pela sua acentuada honestidade e a originalidade, retidão e convicção pessoal que marcam todos seus pensamentos e expressões. O filósofo livresco, por outro lado, deixa evidente que tudo nele é de segunda mão; suas idéias são como uma coleção de farrapos coletados de todos os cantos; mentalmente, é vagaroso e sem sentido – uma cópia de uma cópia. Seu estilo literário é repleto de frases convencionais, ou melhor, vulgares, e termos correntes; neste particular, assemelha-se muito a um pequeno Estado onde todo o dinheiro em circulação é estrangeiro, pois não há cunhagem própria.

A mera experiência toma o lugar do pensamento com a mesma precariedade da leitura. O simples empirismo está para o pensamento assim como comer está para a digestão e assimilação. Quando a experiência alardeia que sozinha, por meio de suas descobertas, promoveu o avanço do conhecimento humano, está a proceder como uma boca que alega possuir todo o crédito por manter a saúde do corpo.

Os trabalhos das mentes realmente capazes se diferenciam pelo caráter de decisão e definição pelos quais se livram da obscuridade. Uma mente realmente capaz sempre sabe precisamente e claramente aquilo que deseja expressar – seja na forma de prosa, verso ou música. Outras mentes deixam a desejar em termos de decisão e clareza, e assim podem ser prontamente identificadas pelo que são.

O sinal característico de uma mente de primeira ordem é a retidão de seu julgamento – sempre julga em primeira mão. Tudo que profere é resultado do pensamento próprio; e isso se mostra patente pelo modo como exprime seus pensamentos. Tal mente é como um príncipe – no reino do intelecto sua autoridade é imperial, enquanto a autoridade das outras mentes é meramente delegada, como pode ser visto pelo seu estilo, que não tem um traço próprio.

Deste modo, todo aquele que realmente pensa por si é como um monarca – sua posição é absoluta, não reconhece ninguém acima de si. Seus julgamentos, como decretos reais, advêm de seu próprio poder soberano e procedem diretamente dele. Aceita a autoridade tão pouco quanto um monarca admite um comando; nada é válido a não ser que tenha autorizado pessoalmente. Por outro lado, a multidão de mentes vulgares, influenciadas por todos os tipos de opiniões populares, autoridades e preconceitos são como as pessoas que, em silêncio, obedecem a lei e aceitam ordem de superiores.

Aqueles que são ávidos e impacientes por resolver questões polêmicas citando autoridades realmente se satisfazem quando conseguem colocar a compreensão e o insight de outrem no campo – no lugar de seus próprios, que são precários. Seu número é legionário. Pois, como Sêneca diz, todos homens preferem acreditar a exercitar o julgamento – unusquisque mavult credere quam judicare. Em suas controvérsias, tais pessoas comumente fazem um uso promíscuo do artifício da autoridade – atacam-se mutuamente com esta. Se alguém se envolver em tal disputa, não obterá sucesso utilizando a razão e argumentação como defesa; pois contra uma arma desse gênero essas pessoas são como Siegfrieds*1 com pele espinhosa, submersos numa enchente de incapacidade de pensar e julgar. Estes atacarão levantando suas autoridades na tentativa de rebaixar o adversário – argumentum ad verecundiam [apelo à autoridade], e então gritam victoria.

No mundo real, seja este justo, favorável e agradável como for, sempre vivemos sujeitos à lei da gravidade, a qual temos de superar constantemente. Mas no mundo intelectual somos espíritos livres, sem o controle da lei da gravidade e livres da penúria e aflição. Por essa razão não há felicidade na terra como aquela que, no momento propício, uma mente refinada e frutuosa encontra em si.

A presença de um pensamento é como a presença da mulher amada. Imaginamos que nunca esqueceremos esses pensamentos nem nos tornaremos indiferentes à amada. Mas fora da vista, fora da mente! O pensamento mais refinado corre o risco de ser irrecuperavelmente esquecido se não for anotado, e a amada de ser abandonada se com esta não nos casarmos.

Há muitos pensamentos que são valiosos ao homem que os pensa; mas poucos deles têm força para produzir uma ação repercussiva ou reflexiva – isto é, ganhar a simpatia do leitor após ter sido colocado no papel.

Mas não se deve esquecer que o verdadeiro valor está apenas no que um homem pensou diretamente para seu próprio caso. Pensadores podem ser classificados da seguinte forma: aqueles que predominantemente pensam para seu próprio caso e aqueles que pensam para o caso de outrem. Os primeiros são os genuínos pensadores independentes – estes de fato pensam e são de fato independentes; são os verdadeiros filósofos – somente estes a sério; o prazer e a felicidade de sua existência consiste em pensar. Os outros são sofistas; desejam parecer aquilo que não são, e buscam sua felicidade naquilo que esperam receber do mundo – é nisso que consiste sua seriedade. Pode-se ver a qual das duas classes um homem pertence através de todo o seu estilo e conduta. Lichtenberg é um exemplo da primeira classe, enquanto Herder obviamente pertence à segunda.

Quando alguém considera quão vasto e quão próximo de nós está o problema da existência – esta nossa equívoca, atormentada, fugaz e onírica existência –, tão vasto e próximo que tão rapidamente quanto alguém o percebe, este ofusca e obscurece todos os outros problemas e objetivos; e quando alguém vê como todos os homens – com poucas e raras exceções – não têm uma consciência clara do problema – ou melhor, mal percebem sua presença –, mas ocupam-se com tudo, menos isso, e vivem a pensar somente para o dia presente e dificilmente para além da duração de seu futuro pessoal, enquanto explicitamente desistem do problema ou estão prontos para aceitá-lo com o auxílio de algum sistema metafísico popular, satisfazendo-se com isso; quando alguém reflete sobre isso, pode adotar a opinião de que o homem só pode ser considerado um ser pensante num sentido muito remoto, e assim não sentir qualquer surpresa especial ante quaisquer traços de irreflexão ou tolice humanas; mas sabendo que, até certo ponto, a amplitude da visão intelectual de um homem normal de fato supera a do animal – cuja existência inteira assemelha-se a um presente contínuo sem qualquer consciência do futuro ou do passado –, mas não numa distância imensurável como normalmente se supõe.

Isso é, de fato, corroborado pelo modo como a maior parte dos homens conversa; vemos que seus pensamentos são podados, tornando impossível que desenvolvam a linha de seu discurso em qualquer sentido.

Se esse mundo fosse povoado por seres realmente pensantes, o barulho de todo tipo não seria permitido até limites tão generosos, como é o caso com a maioria de suas formas horríveis e ao mesmo tempo inúteis.*2 Se a Natureza tivesse feito o homem para pensar, não lhe teria dado ouvidos; ou lhe teria equipado com abas de isolamento acústico – que são as invejáveis posses do morcego. Mas, na verdade, o homem é um pobre animal como o resto, e suas capacidades têm o único propósito de mantê-lo na luta pela existência; deste modo, precisa manter seus ouvidos sempre abertos para anunciar, dia e noite, a aproximação do perseguidor.

Notas:

1) – Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Siegfried ou http://en.wikipedia.org/wiki/Sigurd.

2) – Ver o ensaio On Noise em Studies in Pessimism de Schopenhauer.


10 de jan de 2007

Leituras recomendadas

por HelioPereiriano, da Homepage de Olavo de Carvalho.

"Recomendo fortemente estes textos:

Pensamento e Atualidade em Aristóteles

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SEGUNDA AULA

TERCEIRA AULA

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Ser e Conhecer

Ser e Conhecer 1

Ser e Conhecer 2 (Conhecimento e Presença)


Teoria dos 4 Discursos - Uma das mais belas teorias filosóficas que já li. E brasileira !"

ARISTÓTELES: OS QUATRO DISCURSOS

Niilismo felino




UM RECORTE DE JORNAL:

Fonte: Jornal Estado de Minas – BH, 11/06/1995

A superioridade malandra do gato

Saiu o livro Akhenaton: a história do homem contada por um gato, do historiador francês Gérard Vincent. É coisa fina. Começa divertido, como sugere o título, e termina numa sinfonia de pessimismo erudito. A tradução é salgada ( a certa altura diz que uma lâmpada “foi jazer por terra”), mas são 182 páginas de pura irreverência e sabedoria. Quem conta a história é Akhenaton, um gato siamês que sustenta não só a supremacia divina de sua espécie como demonstra que a divindade, sendo felina, criou os homens para servir os gatos. Com 278 graus de campo visual e a capacidade de ampliar a luz 50 vezes durante a noite, o gato seria fisiologicamente superior ao homem. Com a palavra Akhenaton, que não gosta muito do gênero humano, salvo os bípedes que gostam de gatos, como o cardeal Richelieu, John Kennedy, Paulo Francis e o professor João Manuel Cardoso de Melo:

- Ao gato Deus deu suas qualidades: indolência, lucidez e um sofisticado sistema sensorial. Ao homem Ele deu neurose, paixão pelo trabalho e vaidade.

- Assim como os cães, os homens gostam de ter donos.

- Mamífero ao mesmo tempo herbívoro e carnívoro, o homem ainda não conseguiu construir sua identidade.

- A sociedade se compõe de duas classes, a dos que têm mais jantares do que apetite e a dos que têm mais apetite do que jantares.

Akhenaton não gosta de pobres e tem horror a socialistas. Diz que eles queriam descer o céu à Terra e fizeram subir o inferno. Atribui ao fato dos gatos comerem os ratos tanto a descoberta da América quanto à sobrevivência da espécie humana. É obra de um historiador que domina seu ofício e se meteu no pêlo do gato para compor um divertimento libertino, cético e ateu. Não se recomenda a leitura da catilinária de Akhenaton a pessoas que gostam de livros com historinhas de gatos.

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Capas: frente e verso, respectivamente


EXCERTOS DO LIVRO:

Fonte: Akhenaton: a história do homem contada por um gato – traduzido do siamês por Gérard Vincent
Tradução: Joana Angélica d'Avila Melo
EDITORA SICILIANO, 1995, São Paulo
ISBN 85-267-0720-5

Notas da capa

"Eu, Akhenaton, jamais respondo quando me chamam, a não ser que isso me convenha. Não sou daqueles que atendem à convocação por uma sineta. E não transfiro a ninguém o cuidado de planificar minha felicidade."

"A dificuldade de ser - sem dúvida - obriga o homem a dopar-se perpetuamente: ele fuma, toma café, bebe aguardente ou água de Vittel. Insatisfeito com seu corpo, o homem o veste de modo a mascarar-lhe as imperfeições(...) E os homens não ficam mais felizes; e contudo morrem(...) Mamífero ao mesmo tempo herbívoro e carnívoro, o homem não conseguiu construir sua indentidade."


Notas da contra-capa

Akhenaton, o gato narrador deste livro, percorre os séculos que compõem a História comentando através de sua sábia perspectiva felina os acontecimentos e as tragédias causados pela espécie humana.

A vasta cultura adquirida pelo siamês Akhenaton ao longo de muitos anos dormindo sobre livros está presente aqui não para exibir, gratuitamente, erudição, mas para mostrar seu profundo ceticismo quanto à melhora desta insensata raça de bípedes, “mamífero dotado de alguma inteligência mas bastante medíocre no plano sensorial”, que os gatos, desde o tempo do antigo Egito, vêm salvando dos ratos - “o que talvez tenha sido um erro”.

Imbuído de um senso crítico mordaz, Akhenaton observa a inútil batalha travada pelos homens contra o tempo e conclui que a insatisfação inerente à espécie humana a leva a contestar e alterar a própria natureza através de métodos paliativos que modificam a aparência. Em decorrência dessa dificuldade de ser, o homem acaba se dopando com aguardente, fumo e café.

Akhenaton, em sua elevada e lúcida posição de gato, analisa o comportamento humano ressaltando a irracionalidade intrínseca à espécie e afirma, ainda, que não sente rancor por aquele que tantos males causou a todos os outros seres vivos. Como, afinal, nutrir ressentimento por alguém que se frustrou na busca da própria felicidade?

Cronista do nosso tempo, será nosso gato pessimista? Cáustico e realista, responderá ele. Niilista por natureza, Akhenaton não crê em nada, não tem esperança em nada, não aguarda nada. É nisso que consiste a sabedoria felina? Para o saber, demos nossa língua ao gato.

Gérard Vincent, historiador, ensinou no Instituto de Estudos Políticos de Paris. Autor de várias obras, escreveu, entre elas, Le peuple lycéen (Gallimard, 1974), D'ambition à Zizanie (Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, 1983) e organizou o volume 5 da coleção História da vida privada. Traduz eventualmente e vive entre os gatos.

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Fonte: Akhenaton: a história do homem contada por um gato – por Gérard Vincent

Capítulo I – Língua de gato

Meu nome é Akhenaton e eu sou gato. De minha existência compartilham Amenófis IV, meu irmão gêmeo – mas dizigoto –, e o pintor Édouard. Há muitos anos – dez, quinze? -, um garoto louro de olhos azul-marinho deu a Édouard uma caixa de papelão vermelha, cheia de buracos. Ele levantou a tampa e descobriu dois gatinhos de olhos entreabertos. Tínhamos cinco semanas. “Um presente para o senhor”, disse a criança. Não podendo diferenciar-nos – o olhar humano é de débil acuidade -, Édouard nos batizou de Akhenaton e Amenófis IV por uma razão evidente que o leitor já compreendeu.

O faraó cujo nome eu uso tencionou impor o monoteísmo ao povo egípcio e confiar à arte a missão de representar o real, sem compromisso nem indulgência, a começar com sua própria pessoa, que se pode ver em Karnac: máscara cavalar, braços delgados, peito esquelético, ventre intumescido, quadris femininos, uma verdadeira escultura expressionista. Talvez meu nome tenha contribuído para dar-me a vocação de escrever a história do homem. Talvez me tenha sensibilizado para a percepção do imutável, visto que, durante três milênios, os egípcios construíram, esculpiram, gravaram, pintaram segundo as mesmas normas. Talvez, enfim, me tenha incitado à demasiada indulgência em relação aos animais, havendo Diodoro constatado, com estupefação, que durante uma época de fome os egípcios preferiram devorar-se entre si a comer os animais sagrados. E quase todos os animais o eram.

Aos gatos, que os intrigam e inquietam, os homens consagraram inumeráveis obras. Pousaram sobre nós seu olhar, mas não se preocuparam muito com o que nós lançamos sobre eles. A meta deste livro é preencher tal lacuna. Mas, informo, apesar do título aparentemente lúdico, ele não pretende fazer rir. Não se dirige apenas aos beberrões muito ilustres e malinados muito preciosos, mas a todas aquelas e todos aqueles que se preocupam em conhecer a origem de seus preconceitos e superstições, se não sua própria origem, em suma. Sei quanto os homens são curiosos por sua genealogia. Sei que muitos, nesta terra, imperadores, reis, presidentes, enarcas(1), inspetores, nomenklaturistas, descendem de alguns carregadores de xepa e de cestos, de cordoeiros ou de lavadores de tripas. De igual modo sei que mendigos e mendigas, enfermiços e miseráveis, que a gente vê dormir sob as pontes, pedir esmolas à porta dos hotéis de luxo, acabar sua triste existência no asilo de Ivry, às vezes descendem da raça e linhagem dos imperadores, reis, presidentes, enarcas, inspetores, nomenklaturistas, levando-se em conta a admirável transferência dos reinos e dos impérios. A mim, Akhenaton, acontece-me pensar que descendo daqueles gatos faraônicos que, do alto das pirâmides, olhavam escoarem-se os séculos e desabarem os impérios. Qual Morandi, a consagrar sua vida à contemplação de vasos e garrafas, ocupo a minha na observação das agitações humanas.

Estas são sempre ritmadas pela dialética do senhor e do escravo. Não existem na animalidade. Nós combatemos para sobreviver e acontece-nos ter como repasto a carne de espécies que não odiamos. Mas não as guardamos como reserva em rebanhos, como fazem os homens ao cercarem seus carneiros, vacas, aves, dos mais atentos cuidados antes de os degolar e devorar . E o homem leva às últimas conseqüências o aproveitamentos dos restos: nós deixamos aos abutres as partes não-comíveis de nossas vítimas, os homens com elas fazem casacos, vestidos, bugigangas, egretes para ornar os chapèus das senhoras.

O homem atira-se aos títulos e às coisas. O gato satisfaz-se com o que é, contenta-se com o que tem. Ignora a inveja. A grama é sempre mais verde na margem fronteira, diz o japonês. Nossa própria margem nos basta. Sabemos que a idade de ouro não está atrás de nós, que o eldorado não está adiante. Não somos desesperados. Não esperamos nada, senão repetição.

Diz-se que os povos felizes não têm história. Não existe povo feliz. Portanto só existe história. Convém escrevê-la. Vou tentar, mas entendo, modestamente, ser como Deus no universo, presente em toda parte, visível em nenhum lugar. Não trago mensagem alguma. É preciso, se se quer viver, renunciar a ter uma idéia nítida do que quer que seja. A humanidade é assim, não se trata de modificá-la, mas de conhecê-la. A maneira pela qual falam de Deus todas as religiões me revolta, eis que o tratam com certeza, leviandade, familiaridade. Irritam-me sobretudo os padres, que têm sempre esse nome na boca. É uma espécie de espirro que lhes é habitual: a bondade de Deus, a cólera de Deus, ofender a Deus, eis suas palavras. É considerá-lo como um homem e, pior ainda, como um burguês.

Ouso dirigir-me ao leitor e lembrar-lhe que a História que ele está acostumado a ler não é factual, que não passa de uma série de julgamentos admitidos, que a ignorância é a primeira necessidade da História, visto que simplifica e clarifica, escolhe e omite. Estás convencido de que teus ancestrais que viveram na Idade Média ocidental eram cristãos. Mas fica sabendo que as fontes sobre as quais se baseia tal afirmação são os textos dos clérigos, os únicos que, naquela época, saberiam ler e escrever, e ainda era preciso que seus escritos estivessem conformes aos prejulgados do momento. Antes de leres um livro de história, não privilegies os fatos que relata, mas a pessoa do historiador. Lê sua biografia, depois a de seu biógrafo, e por fim a do biógrafo de sua biografia. Podes fazê-lo? Não, certamente. Portanto, só conhecerás o julgamento de um certo homem, num certo momento, quadro de uma certa época da qual subsistem apenas traços incompletos. O historiador é o produto de uma historia que tu não podes conhecer melhor do que aquela que ele expõe. E, a depender de sua idade, o mesmo historiador pode relatar a mesma história de maneiras diferentes, tanto quanto ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.

A ingenuidade de certos historiadores, os que dão um 'sentido' à História – mas trata-se de direção ou de significação? -, consiste em crer (e fazer crer) que os acontecimentos se empilham como pratos que formariam uma torre capaz de atingir o céu da felicidade. É o que denominam progresso. Um deles, britânico e bastante sábio, vivendo no século dito 'das luzes', não hesitou em escrever: “Podemos concluir com segurança que, desde o começo do mundo, cada século aumentou e continua a aumentar as riquezas reais, a felicidade, a inteligência, e talvez mesmo as virtudes da raça humana.” Não insistamos em tal estupidez. Para nós, gatos, a História é 'quase' imóvel e praticamente não percebemos 'progresso' entre o massacre dos dez mil cristãos ordenado pelo rei Sopor e pintado por Dürer e a combustão de milhões de judeus em Auschwitz. Também não pensamos que o nariz de Cleópatra tenha mudado o mundo nem que um pouco de humor acre, ao afetar uma única fibra de um único homem, possa suspender as infelicidades e as ruínas das nações. Os homens julgam as sociedades a partir deles. Declaram 'bárbaros' os francos, que puniam o roubo com morte e o assassínio com multa. Mas são os mesmos a acharem normal morrer nas estradas e nelas matar o próximo. Somente os gatos, exteriores à sociedade humana e não pertencentes a qualquer outra – pois não existe sociedade felina -, são capazes de chegar à objetividade. Este livro é o primeiro livro de história, não sendo os outros mais do que coletâneas de histórias, tanto quanto a história-narração é um acerto de contas e de contos. Os historiadores, mesmo os mais legitimados, só percebem uma pequena parte daquilo que foi, prisioneiros que são da opacidade do real e da exigência profissional de afirmar a transparência dessa opacidade.

Já era tempo de que viesse o gato para dizer aos homens o que eles foram, o que eles são. Estranhos mamíferos bípedes capazes do melhor e do pior, a aperfeiçoarem a arte de destruir seus semelhantes e as técnicas de sua proliferação: trezentos milhões de homens há dois mil anos; seguramente mais de seis bilhões no ano 2000; eles dominam este pequeno planeta, explorando-o talvez até a total destruição. Não se pode investir nem os carrascos nem as vítimas do encargo de relatar a história das execuções capitais. Estou aqui para tentar fazer isso. Não mergulharei minha pena no sangue das vítimas dos inumeráveis genocídios perpetrados pelos homens, porque também penso naquelas e naqueles – geralmente anônimos – que deram seu tempo e às vezes suas vidas para que alguns otimistas pudessem inventar a palavra 'felicidade'. Denunciarei os verdugos dos gatos pretos, mas farei o elogio de São Filipe Neri, que instalava sua gata branca sobre o altar onde celebrava a missa.

Minha memória carrega pegadas de tudo o que viu, viveu, sofreu minha raça. Sou testemunha absoluta. Vivo (ou morro) quando dezenas de milhões de homens e mulheres são aniquilados pelas epidemias pestosas. Vivo, espectador das festas galantes cantadas e pintadas por Lulli e Watteau. Vivo nas garçonnières dos ricos e nos bordéis para pobres, nas saunas e nas termas. Vivo (ou morro) nas trincheiras de Argonne, em Stalingrado sitiada, em Dresden incendiada, em Hiroshima aniquilada. Tudo isso, eu o relatarei numa língua que não excluirá certo preciosismo. Nós dormimos tanto sobre os dicionários que lhes conhecemos todas as palavras, não confundindo, claro, ataraxia e enteléquia, errância e erro, avatar e acidente e, sempre, entre duas palavras, escolhendo a menor. Visto que nos falta imaginação (não inventamos nada depois de Bastet), nenhuma fantasia se intercala entre aquilo que é e aquilo que nós percebemos.

E nós percebemos mais o que se reproduz do que o que se modifica. Quarenta mil escravos massacrados em 71 a.C. Na batalha de Brundusium e os sobreviventes da revolta de Spartacus crucificados ao longo das vias romanas; cristãos entregues a leões esfomeados nos circos, sob aplauso da multidão; cátaros e outros 'heréticos' queimados aos milhares nas fogueira erguidas pela Inquisição; judeus massacrados em seus guetos pelos cruzados; astecas vítimas de um genocídio e de um etnocídio, militantes comunistas mártires sob Hitler e carrascos sob Stálin – alguns exemplos, entre muitos outros, da 'repetição'.

Quiçá em virtude de minhas origens asiáticas (sou um gato siamês), sinto-me poroso nesta manhã de 1º de agosto, quando se cruzam os que saem de férias e os que dela retornam, a matarem-se vez por outra nas auto-estradas superlotadas. Nas praias mediterrâneas, as preocupações cotidianas tentam transformar-se em iscas de felicidade. Os corpos se desnudam e se bronzeiam; nada-se; veleiros passam sossegadamente; as lanchas arrebentam alguns crânios; o ronco de seus motores abafa o conteúdo insípido das conversas; sai-se á noite para dançar ou jogar no cassino. Por que se agitam eles sem parar? Penso naquele painel de laca que encimava o trono dos imperadores da China e no qual se podia ler: “Não aja”. Faço minhas estas palavras de Confúcio: “Aquele que governa um povo dando-lhe o bom exemplo é como a Estrela Polar, que permanece imóvel enquanto todas as outras se lhe movem em torno.” Nós somos a Estrela Polar dos homens, a lembrar-lhes que quem se conduz verdadeiramente como chefe não toma parte da ação. Deixamos os melhores dos humanos – os menos piores – tentarem conhecer os outros, primeiro passo em direção à sabedoria, concentrando-nos para nos conhecermos a nós mesmos, segundo passo em direção a uma sabedoria superior. Vemos os homens de cima, empoleirando-nos numa árvore, num teto, numa sacada, num revelim. Eles vivem no rés do chão, afigurando-se, porque participantes dessa contigüidade horizontal, ver a totalidade do espetáculo. Os cães, a trotarem ao nível das nádegas humanas, partilham a mesma ilusão. Uns e outros vangloriam-se de haver tudo visto e tudo compreendido. A ingenuidade deles nos leva a sorrir, mas o sorriso de um gato, contrariamente às alegações de Alice, deixa-lhe imóvel o focinho, que se mantém úmido e fresco.

Nada dura que não mude e não venha a ser, por que tentar compreender o universo? Nossa felina preguiça é total, não tencionamos perturbar a ação pela ação, dado que ela já se desfaz enquanto se cumpre. No século passado, um certo Hung Hsih-chuan pretendeu realizar o T'ai-P'ing, 'a grande harmonia'. Para facilitar sua empresa, proclamou-se segundo filho de Deus, igual a Cristo em dignidade. Desencadeou a maior guerra camponesa da historia da humanidade. Houve milhões de mortos e tudo voltou a ser como antes. Por que agir? Os alemães dominaram a Europa pela força das armas; foram vencidos. Dominam-na agora pela força econômica. Por que agir? Os japoneses conquistaram uma parte do mundo com seus camicases e outros soldados; foram vencidos. Hoje ocupam-lhe uma parte muito maior com seus veículos, suas cadeias hi-fi e seus computadores. Por que agir? O yang é a luz, o calor, a atividade, o homem, o dominador, a esquerda do corpo; o yin é a escuridão, o frio, a passividade, a mulher, o dominado, o dorso e a parte direita do corpo. Um e outro são ao mesmo tempo o bem e o mal; são esses dois sopros que nos permitem continuar nosso caminho. E nosso caminhar, o de nós outros, gatos, não é mais do que rodear incessantemente nosso território, defendê-lo sem tentar estendê-lo, distrair-nos a observar a insignificância dos homens, esperar a morte que nos trará a paz. Sim, na alvorada deste 1º de agosto, sinto-me poroso. Impor a própria vontade aos outros é deveras ilusório. Impô-la a si mesmo é conformar-se à lei da Natureza. Tratemos de desfrutar deste acaso – ou de evitar sofrer dele por demais – e obedeçamos a essa lei.

Por vezes, interrogo-me sobre a origem de nossa preguiça. O professor Jacques Sternberg, da Universidade Católica de Louvain, antropólogo, zoólogo e teólogo de reputação mundial, adianta uma hipótese interessante. Segundo ele, Deus teria criado o gato à sua imagem. O gato fez-se, portanto, preguiçoso, visto que Deus, todo poderoso, não necessitara fatigar-se para criar o universo. Não querendo o gato fazer nada, criou Deus o homem para o servir. Ao gato ele dera suas qualidades: indolência, lucidez, sistema sensorial sofisticado; ao homem ele deu neurose, dom da bricolagem, paixão pelo trabalho e vaidade. Graças a tais qualidades subsidiárias, o homem, ao longo dos séculos, edificou uma série de civilizações baseadas na invenção, na produção, no consumo intensivo, as quais edificaram-se, combateram-se, destruíram-se todas uma à outra mas assumiram, apesar de suas impiedosas e sangrentas lutas, a missão de que haviam sido investidas pela potência divina: oferecer ao gato o conforto, a toca e a coberta. Assim é que o homem inventou milhões de objetos inúteis, freqüentemente absurdos, tais como o barbeador elétrico, a bomba atômica, o automóvel, o avião a jato e o TGV, a maioria destinada a matar o tempo, muito embora o homem, obsedado pela inevitabilidade da morte, quisesse que o tempo vivesse. Mas (e isto deve ser dito em louvor ao homem) também inventou alguns utensílios indispensáveis ao bem-estar do gato: o aquecedor de ambiente, a almofada, a tigela, a caixa de serragem, o tapete, o cesto de vime e o rádio para os gatos melômanos.

Essa hipótese cientificamente nova valeu ao professor Sternberg a convocação a Roma pelo cardeal Ratzinger, responsável pela Congregação da Doutrina da Fé. Ele teve a insolência de comparecer, um gato preto sobre cada ombro. Licenciado da Universidade Católica de Louvain, percorreu o mundo metido num hábito de burel e de corda ao pescoço, a repetir: “Um homem é civilizado na medida em que compreende o gato.” o escândalo emocionou as senhoras donas de gatos e os poetas. Os meios de comunicação mobilizaram-se. O Vaticano cedeu. Por meio da encíclica Feles amici hominibus sunt, João Paulo II selou para a eternidade (esperemo-lo) a reconciliação entre a Igreja e o gato.

Os noticiários das 20 horas nos informam que, por ocasião do plano governamental de duplicação das auto-estradas e das vias de TGV no Hexágono, o INSEE e o INED, conjugando esforços, coordenaram uma grande pesquisa sobre a relação dos homens com a velocidade.

À pergunta “Por que deseja andar cada vez mais depressa?” as respostas foram as seguintes:

- Para chegar mais rápido até a frente da tela de tevê: 20%;
- Para me bronzear por mais tempo quando saio de férias: 12%;
- Para encontrar a pessoa amada: 8%;
- Para ler: 0,01%;
- Não sei: 40%;
- Não responderam: 19,99%.

Aos que responderam “para me bronzear por mais tempo”, fez-se a seguinte pergunta:

Por que gosta de bronzear-se?

Respostas:

- Para não pensar mais: 70%;
- Para ficar mais bonito (ou mais bonita): 20%;
- Não responderam: 10%.

Àquelas e àqueles cuja resposta foi “Para não pensar mais”, perguntou-se (questão aberta):
Quando pensa, em que pensa?

Respostas:

- Em nada: 80%;
- Em meus problemas profissionais:10%;
- Em meus problemas familiares: 8%;
- No sentido da História: 1%;
- Na história do sentido: 1%.

Como recomenda Epicuro, desprendo-me de todas as preocupações triviais, que são outros tantos obstáculos à conquista da beatitude. Não creio na existência da alma, mas, se se entende assim a uma certa aptidão para sofrer, para pensar o mundo e pensar-se no mundo, sei que ela desaparecerá comigo. Não tendo necessidade nem de suportes políticos nem de proteções complacentes, não busco a amizade de ninguém; aceito as que se apresentam. Contrariamente aos cães, aos asnos e aos homens, rejeito qualquer humilhação, podendo sempre partir e encontrar o necessário para sobreviver. Não escreverei certamente, após haver recebido uma palmada, que “a execução foi menos terrível do que fora a espera, que o castigo me afeiçoou ainda mais àquela que mo havia imposto, pois eu encontrara na dor, na vergonha mesma, uma mistura de sensualidade que me deixara mais desejo do que temor”. E não admito que Malebranche tenha dado pontapés no ventre de sua gata prenhe, atribuindo os gritos dela aos 'espíritos animais'.

Posso dormir 20 horas por dia e gozar assim de uma quietude catastemática. Quanto aos desejos, são de três espécies. Desejos naturais e necessários: beber, comer, dormir, estar aquecido, vez por outra conhecer Nefertiti. Desejos naturais e não-necessários, que diversificam o prazer e que tento satisfazer: prefiro, ao camundongo de passagem, as iguarias requintadas que Édouard me prepara. Quanto aos desejos nem necessários, nem naturais, como a riqueza, as honrarias, a glória, de que são tão ávidos os homens, não os experimento.

É principalmente no que se refere à morte que me separo dos homens. Ela é para mim desaparecimento total e fim absoluto da vida. Todo bem e todo mal residem na sensação, e a morte é o desaparecimento desta. A morte faz tremerem os homens mas nada é para mim, pois, enquanto eu existo, ela não é e, quando é, eu não sou mais. Fantasma e quimera, só existe quando não existe. Por isso, Demócrito, Epicuro, Lucrécio, Montaigne e Swift, esses pessimistas absolutos, são meus mestres de pensamento. São Jerônimo afirmava que Lucrécio, havendo enlouquecido, se teria suicidado para infligir-se o castigo reservado aos ímpios. Lucrécio não acreditava nos deuses. Para ele, o homem era nada em relação ao todo, e um todo em relação ao nada. Criança, como o marujo que as vagas furiosas rejeitam sobre a orla, o homem jaz por terra, impotente para falar, desprovido de qualquer meio de viver, desde o primeiro instante em que, confrontado com o ritmo da luz, a Natureza o arranca à força ao ventre de sua mãe. Jamais se recuperará dessa miséria inicial e permanecerá, vida afora, estrangeiro num mundo para ele ininteligível. Vindo do nada, a ele o homem retornará de corpo e alma, depois de consagrar sua vida ao temor da morte e à invenção de uma existência no além, para adaptar-se à sua perpétua ansiedade. Para suportar tal espera, alimentar-se-á de ilusões: ilusão do progresso; ilusão de uma possível sabedoria trazida pela filosofia; ilusão de uma eventual comunicação com seu próximo; ilusão do amor, que não passa de uma luta da carne, sem saída e sem alegria, não sendo o amplexo senão a realidade trágica do fracasso. Como não existe nenhum mundo antes, depois, em outro lugar, a única coisa a fazer é não fazer nada e contemplar, imóvel, impassível, sereno, o trágico desenrolar-se dessa deambulação que conduz do nada ao nada. Tal é a atitude dos gatos. Os átomos, por um momento agregados para me constituir, a mim, Akhenaton, espalhar-se-ão depois de minha morte, e só restarão estas palavras.

O que acabo de escrever, leitoras, leitores, parecer-vos-á talvez brutal, mas os príncipes, em sua felicidade, parecem-me sobremaneira dignos de lástima por serem privados de ouvir a verdade e forçados a escutar aduladores, e não amigos. Há os que pensam que se pode mudar o homem e os que se resignam a tomá-lo pelo pouco que ele é. Estou entre estes últimos. Quanto ao leitor que se indignasse com minha pretensão, retorquir-lhe-ia: “Por humildade, não temo ninguém”.


Notas:

(1) enarcas – irônico neologismo para designar os ex-alunos da E.N.A., École Nationale d'Administration (N. da T.).

9 de jan de 2007

2001: uma odisséia no espaço


Só para inaugurar este blog:

Para aqueles que assistiram ao filme 2001: uma odisséia no espaço mas não compreenderam muito bem a mensagem que Stanley Kubrick quis passar, eis aqui uma animação em flash que tenta explicá-lo enfocando alguns pontos-chaves do filme.

A odisséia no espaço explicada