10 de jan de 2007

Niilismo felino




UM RECORTE DE JORNAL:

Fonte: Jornal Estado de Minas – BH, 11/06/1995

A superioridade malandra do gato

Saiu o livro Akhenaton: a história do homem contada por um gato, do historiador francês Gérard Vincent. É coisa fina. Começa divertido, como sugere o título, e termina numa sinfonia de pessimismo erudito. A tradução é salgada ( a certa altura diz que uma lâmpada “foi jazer por terra”), mas são 182 páginas de pura irreverência e sabedoria. Quem conta a história é Akhenaton, um gato siamês que sustenta não só a supremacia divina de sua espécie como demonstra que a divindade, sendo felina, criou os homens para servir os gatos. Com 278 graus de campo visual e a capacidade de ampliar a luz 50 vezes durante a noite, o gato seria fisiologicamente superior ao homem. Com a palavra Akhenaton, que não gosta muito do gênero humano, salvo os bípedes que gostam de gatos, como o cardeal Richelieu, John Kennedy, Paulo Francis e o professor João Manuel Cardoso de Melo:

- Ao gato Deus deu suas qualidades: indolência, lucidez e um sofisticado sistema sensorial. Ao homem Ele deu neurose, paixão pelo trabalho e vaidade.

- Assim como os cães, os homens gostam de ter donos.

- Mamífero ao mesmo tempo herbívoro e carnívoro, o homem ainda não conseguiu construir sua identidade.

- A sociedade se compõe de duas classes, a dos que têm mais jantares do que apetite e a dos que têm mais apetite do que jantares.

Akhenaton não gosta de pobres e tem horror a socialistas. Diz que eles queriam descer o céu à Terra e fizeram subir o inferno. Atribui ao fato dos gatos comerem os ratos tanto a descoberta da América quanto à sobrevivência da espécie humana. É obra de um historiador que domina seu ofício e se meteu no pêlo do gato para compor um divertimento libertino, cético e ateu. Não se recomenda a leitura da catilinária de Akhenaton a pessoas que gostam de livros com historinhas de gatos.

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Capas: frente e verso, respectivamente


EXCERTOS DO LIVRO:

Fonte: Akhenaton: a história do homem contada por um gato – traduzido do siamês por Gérard Vincent
Tradução: Joana Angélica d'Avila Melo
EDITORA SICILIANO, 1995, São Paulo
ISBN 85-267-0720-5

Notas da capa

"Eu, Akhenaton, jamais respondo quando me chamam, a não ser que isso me convenha. Não sou daqueles que atendem à convocação por uma sineta. E não transfiro a ninguém o cuidado de planificar minha felicidade."

"A dificuldade de ser - sem dúvida - obriga o homem a dopar-se perpetuamente: ele fuma, toma café, bebe aguardente ou água de Vittel. Insatisfeito com seu corpo, o homem o veste de modo a mascarar-lhe as imperfeições(...) E os homens não ficam mais felizes; e contudo morrem(...) Mamífero ao mesmo tempo herbívoro e carnívoro, o homem não conseguiu construir sua indentidade."


Notas da contra-capa

Akhenaton, o gato narrador deste livro, percorre os séculos que compõem a História comentando através de sua sábia perspectiva felina os acontecimentos e as tragédias causados pela espécie humana.

A vasta cultura adquirida pelo siamês Akhenaton ao longo de muitos anos dormindo sobre livros está presente aqui não para exibir, gratuitamente, erudição, mas para mostrar seu profundo ceticismo quanto à melhora desta insensata raça de bípedes, “mamífero dotado de alguma inteligência mas bastante medíocre no plano sensorial”, que os gatos, desde o tempo do antigo Egito, vêm salvando dos ratos - “o que talvez tenha sido um erro”.

Imbuído de um senso crítico mordaz, Akhenaton observa a inútil batalha travada pelos homens contra o tempo e conclui que a insatisfação inerente à espécie humana a leva a contestar e alterar a própria natureza através de métodos paliativos que modificam a aparência. Em decorrência dessa dificuldade de ser, o homem acaba se dopando com aguardente, fumo e café.

Akhenaton, em sua elevada e lúcida posição de gato, analisa o comportamento humano ressaltando a irracionalidade intrínseca à espécie e afirma, ainda, que não sente rancor por aquele que tantos males causou a todos os outros seres vivos. Como, afinal, nutrir ressentimento por alguém que se frustrou na busca da própria felicidade?

Cronista do nosso tempo, será nosso gato pessimista? Cáustico e realista, responderá ele. Niilista por natureza, Akhenaton não crê em nada, não tem esperança em nada, não aguarda nada. É nisso que consiste a sabedoria felina? Para o saber, demos nossa língua ao gato.

Gérard Vincent, historiador, ensinou no Instituto de Estudos Políticos de Paris. Autor de várias obras, escreveu, entre elas, Le peuple lycéen (Gallimard, 1974), D'ambition à Zizanie (Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, 1983) e organizou o volume 5 da coleção História da vida privada. Traduz eventualmente e vive entre os gatos.

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Fonte: Akhenaton: a história do homem contada por um gato – por Gérard Vincent

Capítulo I – Língua de gato

Meu nome é Akhenaton e eu sou gato. De minha existência compartilham Amenófis IV, meu irmão gêmeo – mas dizigoto –, e o pintor Édouard. Há muitos anos – dez, quinze? -, um garoto louro de olhos azul-marinho deu a Édouard uma caixa de papelão vermelha, cheia de buracos. Ele levantou a tampa e descobriu dois gatinhos de olhos entreabertos. Tínhamos cinco semanas. “Um presente para o senhor”, disse a criança. Não podendo diferenciar-nos – o olhar humano é de débil acuidade -, Édouard nos batizou de Akhenaton e Amenófis IV por uma razão evidente que o leitor já compreendeu.

O faraó cujo nome eu uso tencionou impor o monoteísmo ao povo egípcio e confiar à arte a missão de representar o real, sem compromisso nem indulgência, a começar com sua própria pessoa, que se pode ver em Karnac: máscara cavalar, braços delgados, peito esquelético, ventre intumescido, quadris femininos, uma verdadeira escultura expressionista. Talvez meu nome tenha contribuído para dar-me a vocação de escrever a história do homem. Talvez me tenha sensibilizado para a percepção do imutável, visto que, durante três milênios, os egípcios construíram, esculpiram, gravaram, pintaram segundo as mesmas normas. Talvez, enfim, me tenha incitado à demasiada indulgência em relação aos animais, havendo Diodoro constatado, com estupefação, que durante uma época de fome os egípcios preferiram devorar-se entre si a comer os animais sagrados. E quase todos os animais o eram.

Aos gatos, que os intrigam e inquietam, os homens consagraram inumeráveis obras. Pousaram sobre nós seu olhar, mas não se preocuparam muito com o que nós lançamos sobre eles. A meta deste livro é preencher tal lacuna. Mas, informo, apesar do título aparentemente lúdico, ele não pretende fazer rir. Não se dirige apenas aos beberrões muito ilustres e malinados muito preciosos, mas a todas aquelas e todos aqueles que se preocupam em conhecer a origem de seus preconceitos e superstições, se não sua própria origem, em suma. Sei quanto os homens são curiosos por sua genealogia. Sei que muitos, nesta terra, imperadores, reis, presidentes, enarcas(1), inspetores, nomenklaturistas, descendem de alguns carregadores de xepa e de cestos, de cordoeiros ou de lavadores de tripas. De igual modo sei que mendigos e mendigas, enfermiços e miseráveis, que a gente vê dormir sob as pontes, pedir esmolas à porta dos hotéis de luxo, acabar sua triste existência no asilo de Ivry, às vezes descendem da raça e linhagem dos imperadores, reis, presidentes, enarcas, inspetores, nomenklaturistas, levando-se em conta a admirável transferência dos reinos e dos impérios. A mim, Akhenaton, acontece-me pensar que descendo daqueles gatos faraônicos que, do alto das pirâmides, olhavam escoarem-se os séculos e desabarem os impérios. Qual Morandi, a consagrar sua vida à contemplação de vasos e garrafas, ocupo a minha na observação das agitações humanas.

Estas são sempre ritmadas pela dialética do senhor e do escravo. Não existem na animalidade. Nós combatemos para sobreviver e acontece-nos ter como repasto a carne de espécies que não odiamos. Mas não as guardamos como reserva em rebanhos, como fazem os homens ao cercarem seus carneiros, vacas, aves, dos mais atentos cuidados antes de os degolar e devorar . E o homem leva às últimas conseqüências o aproveitamentos dos restos: nós deixamos aos abutres as partes não-comíveis de nossas vítimas, os homens com elas fazem casacos, vestidos, bugigangas, egretes para ornar os chapèus das senhoras.

O homem atira-se aos títulos e às coisas. O gato satisfaz-se com o que é, contenta-se com o que tem. Ignora a inveja. A grama é sempre mais verde na margem fronteira, diz o japonês. Nossa própria margem nos basta. Sabemos que a idade de ouro não está atrás de nós, que o eldorado não está adiante. Não somos desesperados. Não esperamos nada, senão repetição.

Diz-se que os povos felizes não têm história. Não existe povo feliz. Portanto só existe história. Convém escrevê-la. Vou tentar, mas entendo, modestamente, ser como Deus no universo, presente em toda parte, visível em nenhum lugar. Não trago mensagem alguma. É preciso, se se quer viver, renunciar a ter uma idéia nítida do que quer que seja. A humanidade é assim, não se trata de modificá-la, mas de conhecê-la. A maneira pela qual falam de Deus todas as religiões me revolta, eis que o tratam com certeza, leviandade, familiaridade. Irritam-me sobretudo os padres, que têm sempre esse nome na boca. É uma espécie de espirro que lhes é habitual: a bondade de Deus, a cólera de Deus, ofender a Deus, eis suas palavras. É considerá-lo como um homem e, pior ainda, como um burguês.

Ouso dirigir-me ao leitor e lembrar-lhe que a História que ele está acostumado a ler não é factual, que não passa de uma série de julgamentos admitidos, que a ignorância é a primeira necessidade da História, visto que simplifica e clarifica, escolhe e omite. Estás convencido de que teus ancestrais que viveram na Idade Média ocidental eram cristãos. Mas fica sabendo que as fontes sobre as quais se baseia tal afirmação são os textos dos clérigos, os únicos que, naquela época, saberiam ler e escrever, e ainda era preciso que seus escritos estivessem conformes aos prejulgados do momento. Antes de leres um livro de história, não privilegies os fatos que relata, mas a pessoa do historiador. Lê sua biografia, depois a de seu biógrafo, e por fim a do biógrafo de sua biografia. Podes fazê-lo? Não, certamente. Portanto, só conhecerás o julgamento de um certo homem, num certo momento, quadro de uma certa época da qual subsistem apenas traços incompletos. O historiador é o produto de uma historia que tu não podes conhecer melhor do que aquela que ele expõe. E, a depender de sua idade, o mesmo historiador pode relatar a mesma história de maneiras diferentes, tanto quanto ninguém se banha duas vezes no mesmo rio.

A ingenuidade de certos historiadores, os que dão um 'sentido' à História – mas trata-se de direção ou de significação? -, consiste em crer (e fazer crer) que os acontecimentos se empilham como pratos que formariam uma torre capaz de atingir o céu da felicidade. É o que denominam progresso. Um deles, britânico e bastante sábio, vivendo no século dito 'das luzes', não hesitou em escrever: “Podemos concluir com segurança que, desde o começo do mundo, cada século aumentou e continua a aumentar as riquezas reais, a felicidade, a inteligência, e talvez mesmo as virtudes da raça humana.” Não insistamos em tal estupidez. Para nós, gatos, a História é 'quase' imóvel e praticamente não percebemos 'progresso' entre o massacre dos dez mil cristãos ordenado pelo rei Sopor e pintado por Dürer e a combustão de milhões de judeus em Auschwitz. Também não pensamos que o nariz de Cleópatra tenha mudado o mundo nem que um pouco de humor acre, ao afetar uma única fibra de um único homem, possa suspender as infelicidades e as ruínas das nações. Os homens julgam as sociedades a partir deles. Declaram 'bárbaros' os francos, que puniam o roubo com morte e o assassínio com multa. Mas são os mesmos a acharem normal morrer nas estradas e nelas matar o próximo. Somente os gatos, exteriores à sociedade humana e não pertencentes a qualquer outra – pois não existe sociedade felina -, são capazes de chegar à objetividade. Este livro é o primeiro livro de história, não sendo os outros mais do que coletâneas de histórias, tanto quanto a história-narração é um acerto de contas e de contos. Os historiadores, mesmo os mais legitimados, só percebem uma pequena parte daquilo que foi, prisioneiros que são da opacidade do real e da exigência profissional de afirmar a transparência dessa opacidade.

Já era tempo de que viesse o gato para dizer aos homens o que eles foram, o que eles são. Estranhos mamíferos bípedes capazes do melhor e do pior, a aperfeiçoarem a arte de destruir seus semelhantes e as técnicas de sua proliferação: trezentos milhões de homens há dois mil anos; seguramente mais de seis bilhões no ano 2000; eles dominam este pequeno planeta, explorando-o talvez até a total destruição. Não se pode investir nem os carrascos nem as vítimas do encargo de relatar a história das execuções capitais. Estou aqui para tentar fazer isso. Não mergulharei minha pena no sangue das vítimas dos inumeráveis genocídios perpetrados pelos homens, porque também penso naquelas e naqueles – geralmente anônimos – que deram seu tempo e às vezes suas vidas para que alguns otimistas pudessem inventar a palavra 'felicidade'. Denunciarei os verdugos dos gatos pretos, mas farei o elogio de São Filipe Neri, que instalava sua gata branca sobre o altar onde celebrava a missa.

Minha memória carrega pegadas de tudo o que viu, viveu, sofreu minha raça. Sou testemunha absoluta. Vivo (ou morro) quando dezenas de milhões de homens e mulheres são aniquilados pelas epidemias pestosas. Vivo, espectador das festas galantes cantadas e pintadas por Lulli e Watteau. Vivo nas garçonnières dos ricos e nos bordéis para pobres, nas saunas e nas termas. Vivo (ou morro) nas trincheiras de Argonne, em Stalingrado sitiada, em Dresden incendiada, em Hiroshima aniquilada. Tudo isso, eu o relatarei numa língua que não excluirá certo preciosismo. Nós dormimos tanto sobre os dicionários que lhes conhecemos todas as palavras, não confundindo, claro, ataraxia e enteléquia, errância e erro, avatar e acidente e, sempre, entre duas palavras, escolhendo a menor. Visto que nos falta imaginação (não inventamos nada depois de Bastet), nenhuma fantasia se intercala entre aquilo que é e aquilo que nós percebemos.

E nós percebemos mais o que se reproduz do que o que se modifica. Quarenta mil escravos massacrados em 71 a.C. Na batalha de Brundusium e os sobreviventes da revolta de Spartacus crucificados ao longo das vias romanas; cristãos entregues a leões esfomeados nos circos, sob aplauso da multidão; cátaros e outros 'heréticos' queimados aos milhares nas fogueira erguidas pela Inquisição; judeus massacrados em seus guetos pelos cruzados; astecas vítimas de um genocídio e de um etnocídio, militantes comunistas mártires sob Hitler e carrascos sob Stálin – alguns exemplos, entre muitos outros, da 'repetição'.

Quiçá em virtude de minhas origens asiáticas (sou um gato siamês), sinto-me poroso nesta manhã de 1º de agosto, quando se cruzam os que saem de férias e os que dela retornam, a matarem-se vez por outra nas auto-estradas superlotadas. Nas praias mediterrâneas, as preocupações cotidianas tentam transformar-se em iscas de felicidade. Os corpos se desnudam e se bronzeiam; nada-se; veleiros passam sossegadamente; as lanchas arrebentam alguns crânios; o ronco de seus motores abafa o conteúdo insípido das conversas; sai-se á noite para dançar ou jogar no cassino. Por que se agitam eles sem parar? Penso naquele painel de laca que encimava o trono dos imperadores da China e no qual se podia ler: “Não aja”. Faço minhas estas palavras de Confúcio: “Aquele que governa um povo dando-lhe o bom exemplo é como a Estrela Polar, que permanece imóvel enquanto todas as outras se lhe movem em torno.” Nós somos a Estrela Polar dos homens, a lembrar-lhes que quem se conduz verdadeiramente como chefe não toma parte da ação. Deixamos os melhores dos humanos – os menos piores – tentarem conhecer os outros, primeiro passo em direção à sabedoria, concentrando-nos para nos conhecermos a nós mesmos, segundo passo em direção a uma sabedoria superior. Vemos os homens de cima, empoleirando-nos numa árvore, num teto, numa sacada, num revelim. Eles vivem no rés do chão, afigurando-se, porque participantes dessa contigüidade horizontal, ver a totalidade do espetáculo. Os cães, a trotarem ao nível das nádegas humanas, partilham a mesma ilusão. Uns e outros vangloriam-se de haver tudo visto e tudo compreendido. A ingenuidade deles nos leva a sorrir, mas o sorriso de um gato, contrariamente às alegações de Alice, deixa-lhe imóvel o focinho, que se mantém úmido e fresco.

Nada dura que não mude e não venha a ser, por que tentar compreender o universo? Nossa felina preguiça é total, não tencionamos perturbar a ação pela ação, dado que ela já se desfaz enquanto se cumpre. No século passado, um certo Hung Hsih-chuan pretendeu realizar o T'ai-P'ing, 'a grande harmonia'. Para facilitar sua empresa, proclamou-se segundo filho de Deus, igual a Cristo em dignidade. Desencadeou a maior guerra camponesa da historia da humanidade. Houve milhões de mortos e tudo voltou a ser como antes. Por que agir? Os alemães dominaram a Europa pela força das armas; foram vencidos. Dominam-na agora pela força econômica. Por que agir? Os japoneses conquistaram uma parte do mundo com seus camicases e outros soldados; foram vencidos. Hoje ocupam-lhe uma parte muito maior com seus veículos, suas cadeias hi-fi e seus computadores. Por que agir? O yang é a luz, o calor, a atividade, o homem, o dominador, a esquerda do corpo; o yin é a escuridão, o frio, a passividade, a mulher, o dominado, o dorso e a parte direita do corpo. Um e outro são ao mesmo tempo o bem e o mal; são esses dois sopros que nos permitem continuar nosso caminho. E nosso caminhar, o de nós outros, gatos, não é mais do que rodear incessantemente nosso território, defendê-lo sem tentar estendê-lo, distrair-nos a observar a insignificância dos homens, esperar a morte que nos trará a paz. Sim, na alvorada deste 1º de agosto, sinto-me poroso. Impor a própria vontade aos outros é deveras ilusório. Impô-la a si mesmo é conformar-se à lei da Natureza. Tratemos de desfrutar deste acaso – ou de evitar sofrer dele por demais – e obedeçamos a essa lei.

Por vezes, interrogo-me sobre a origem de nossa preguiça. O professor Jacques Sternberg, da Universidade Católica de Louvain, antropólogo, zoólogo e teólogo de reputação mundial, adianta uma hipótese interessante. Segundo ele, Deus teria criado o gato à sua imagem. O gato fez-se, portanto, preguiçoso, visto que Deus, todo poderoso, não necessitara fatigar-se para criar o universo. Não querendo o gato fazer nada, criou Deus o homem para o servir. Ao gato ele dera suas qualidades: indolência, lucidez, sistema sensorial sofisticado; ao homem ele deu neurose, dom da bricolagem, paixão pelo trabalho e vaidade. Graças a tais qualidades subsidiárias, o homem, ao longo dos séculos, edificou uma série de civilizações baseadas na invenção, na produção, no consumo intensivo, as quais edificaram-se, combateram-se, destruíram-se todas uma à outra mas assumiram, apesar de suas impiedosas e sangrentas lutas, a missão de que haviam sido investidas pela potência divina: oferecer ao gato o conforto, a toca e a coberta. Assim é que o homem inventou milhões de objetos inúteis, freqüentemente absurdos, tais como o barbeador elétrico, a bomba atômica, o automóvel, o avião a jato e o TGV, a maioria destinada a matar o tempo, muito embora o homem, obsedado pela inevitabilidade da morte, quisesse que o tempo vivesse. Mas (e isto deve ser dito em louvor ao homem) também inventou alguns utensílios indispensáveis ao bem-estar do gato: o aquecedor de ambiente, a almofada, a tigela, a caixa de serragem, o tapete, o cesto de vime e o rádio para os gatos melômanos.

Essa hipótese cientificamente nova valeu ao professor Sternberg a convocação a Roma pelo cardeal Ratzinger, responsável pela Congregação da Doutrina da Fé. Ele teve a insolência de comparecer, um gato preto sobre cada ombro. Licenciado da Universidade Católica de Louvain, percorreu o mundo metido num hábito de burel e de corda ao pescoço, a repetir: “Um homem é civilizado na medida em que compreende o gato.” o escândalo emocionou as senhoras donas de gatos e os poetas. Os meios de comunicação mobilizaram-se. O Vaticano cedeu. Por meio da encíclica Feles amici hominibus sunt, João Paulo II selou para a eternidade (esperemo-lo) a reconciliação entre a Igreja e o gato.

Os noticiários das 20 horas nos informam que, por ocasião do plano governamental de duplicação das auto-estradas e das vias de TGV no Hexágono, o INSEE e o INED, conjugando esforços, coordenaram uma grande pesquisa sobre a relação dos homens com a velocidade.

À pergunta “Por que deseja andar cada vez mais depressa?” as respostas foram as seguintes:

- Para chegar mais rápido até a frente da tela de tevê: 20%;
- Para me bronzear por mais tempo quando saio de férias: 12%;
- Para encontrar a pessoa amada: 8%;
- Para ler: 0,01%;
- Não sei: 40%;
- Não responderam: 19,99%.

Aos que responderam “para me bronzear por mais tempo”, fez-se a seguinte pergunta:

Por que gosta de bronzear-se?

Respostas:

- Para não pensar mais: 70%;
- Para ficar mais bonito (ou mais bonita): 20%;
- Não responderam: 10%.

Àquelas e àqueles cuja resposta foi “Para não pensar mais”, perguntou-se (questão aberta):
Quando pensa, em que pensa?

Respostas:

- Em nada: 80%;
- Em meus problemas profissionais:10%;
- Em meus problemas familiares: 8%;
- No sentido da História: 1%;
- Na história do sentido: 1%.

Como recomenda Epicuro, desprendo-me de todas as preocupações triviais, que são outros tantos obstáculos à conquista da beatitude. Não creio na existência da alma, mas, se se entende assim a uma certa aptidão para sofrer, para pensar o mundo e pensar-se no mundo, sei que ela desaparecerá comigo. Não tendo necessidade nem de suportes políticos nem de proteções complacentes, não busco a amizade de ninguém; aceito as que se apresentam. Contrariamente aos cães, aos asnos e aos homens, rejeito qualquer humilhação, podendo sempre partir e encontrar o necessário para sobreviver. Não escreverei certamente, após haver recebido uma palmada, que “a execução foi menos terrível do que fora a espera, que o castigo me afeiçoou ainda mais àquela que mo havia imposto, pois eu encontrara na dor, na vergonha mesma, uma mistura de sensualidade que me deixara mais desejo do que temor”. E não admito que Malebranche tenha dado pontapés no ventre de sua gata prenhe, atribuindo os gritos dela aos 'espíritos animais'.

Posso dormir 20 horas por dia e gozar assim de uma quietude catastemática. Quanto aos desejos, são de três espécies. Desejos naturais e necessários: beber, comer, dormir, estar aquecido, vez por outra conhecer Nefertiti. Desejos naturais e não-necessários, que diversificam o prazer e que tento satisfazer: prefiro, ao camundongo de passagem, as iguarias requintadas que Édouard me prepara. Quanto aos desejos nem necessários, nem naturais, como a riqueza, as honrarias, a glória, de que são tão ávidos os homens, não os experimento.

É principalmente no que se refere à morte que me separo dos homens. Ela é para mim desaparecimento total e fim absoluto da vida. Todo bem e todo mal residem na sensação, e a morte é o desaparecimento desta. A morte faz tremerem os homens mas nada é para mim, pois, enquanto eu existo, ela não é e, quando é, eu não sou mais. Fantasma e quimera, só existe quando não existe. Por isso, Demócrito, Epicuro, Lucrécio, Montaigne e Swift, esses pessimistas absolutos, são meus mestres de pensamento. São Jerônimo afirmava que Lucrécio, havendo enlouquecido, se teria suicidado para infligir-se o castigo reservado aos ímpios. Lucrécio não acreditava nos deuses. Para ele, o homem era nada em relação ao todo, e um todo em relação ao nada. Criança, como o marujo que as vagas furiosas rejeitam sobre a orla, o homem jaz por terra, impotente para falar, desprovido de qualquer meio de viver, desde o primeiro instante em que, confrontado com o ritmo da luz, a Natureza o arranca à força ao ventre de sua mãe. Jamais se recuperará dessa miséria inicial e permanecerá, vida afora, estrangeiro num mundo para ele ininteligível. Vindo do nada, a ele o homem retornará de corpo e alma, depois de consagrar sua vida ao temor da morte e à invenção de uma existência no além, para adaptar-se à sua perpétua ansiedade. Para suportar tal espera, alimentar-se-á de ilusões: ilusão do progresso; ilusão de uma possível sabedoria trazida pela filosofia; ilusão de uma eventual comunicação com seu próximo; ilusão do amor, que não passa de uma luta da carne, sem saída e sem alegria, não sendo o amplexo senão a realidade trágica do fracasso. Como não existe nenhum mundo antes, depois, em outro lugar, a única coisa a fazer é não fazer nada e contemplar, imóvel, impassível, sereno, o trágico desenrolar-se dessa deambulação que conduz do nada ao nada. Tal é a atitude dos gatos. Os átomos, por um momento agregados para me constituir, a mim, Akhenaton, espalhar-se-ão depois de minha morte, e só restarão estas palavras.

O que acabo de escrever, leitoras, leitores, parecer-vos-á talvez brutal, mas os príncipes, em sua felicidade, parecem-me sobremaneira dignos de lástima por serem privados de ouvir a verdade e forçados a escutar aduladores, e não amigos. Há os que pensam que se pode mudar o homem e os que se resignam a tomá-lo pelo pouco que ele é. Estou entre estes últimos. Quanto ao leitor que se indignasse com minha pretensão, retorquir-lhe-ia: “Por humildade, não temo ninguém”.


Notas:

(1) enarcas – irônico neologismo para designar os ex-alunos da E.N.A., École Nationale d'Administration (N. da T.).

Um comentário:

Anninha disse...

Fiquei curiosíssima para conhecer este livro! Sou apaixonada por gatos, tenho certeza que iria adorar o conteúdo do livro.