18 de ago de 2007

Eppur si muove.

NÃO se pode calar um homem.

Tirem-lhe a voz, restará o nome. Tirem-lhe o nome, e em nossa boca restará a sua antiga fome.

Matar, sim, se pode. Se pode matar um homem.

Mas sua voz, como os peixes, nada contra a corrente, a procriar verdades novas na direção contrária à foz.

Mente quem fala que quem cala consente.

Quem cala, às vezes, re-sente. Por trás dos muros dos dentes, edifica-se um discurso transparente.

Um homem não se cala com um tiro ou mordaça.

A ameaça só faz falar nele o que nele está latente.

Ninguém cala ninguém, pois existe o inconsciente. Só se deixa enganar assim quem age medievalmente.

  • Como se faz para calar o vento, quando ele sopra com a força do pensamento?

  • Não se pode caçar a palavra a um homem, como se caça às feras o pêlo e o chifre na emboscada das savanas.

Não se pode, como a um pássaro, aprisionar a voz humana.

A gaiola só é prisão para quem não entende a liberdade do não.

Se a palavra é uma chave, que fala de prisão, o silêncio é uma ave, que canta na escuridão.

A ausência da voz é, mesmo assim, um discurso. É como um rio vazio, cujas margens, sem água, dão notícia de seu curso.

No princípio era o Verbo – bem se pode interpretar: no silêncio era o Verbo, e o Verbo do silêncio só fazia verberar.

Na verdade, na verdade vos digo: mais perturbador que a fala do sábio, é seu sábio silêncio, seu silêncio con-sentido.

O que fazer de um discurso interrompido? Hibernou? Secou na boca, contido?

Ah, o silêncio é um discurso invertido, modo de falar alto o proibido.

O silêncio, depois da fala, não é mais inteiro. Passa a ter duplo sentido. É como um fruto proibido. Comido, não pela boca, mas pela fome do nosso ouvido.

Se um silêncio é demais, quando é de dois, geminado, mais que silêncio, é perigo. É uma forma de ruído.

Por isto que o silêncio de algumas consciências, quando passa a ser ouvido, não é silêncio, é estampido.


Eppur si muove (*) – Para Leonardo e Clodovis Boff

Texto de Affonso Romano de Santanna

(*) "Ainda assim, ela se move" - Frase dita por Galileu, após abjurar (diante da Inquisição) que o planeta Terra girava em torno do sol.

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