30 de jul de 2007

Círculo Vicioso


Círculo Vicioso


Machado de Assis


Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

-"Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

-"Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume:
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

- "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"

(Ocidentais, in Poesias completas, 1901.)


Nota: soneto que expressa a insatisfação universal, na qual cada um está sempre cobiçando a posição ou a situação de outrem.



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